Pensos higiénicos reutilizáveis: na busca de auto-estima feminina
Escrito por Precidónio Silvério
A menstruação não é uma aberração! Isso mesmo, estamos a falar da menstruação. De facto, ela não é uma aberração, e quem o diz são três meninas moçambicanas, a Cídia Chissungo, a Júlia Zandamela e a Eleutéria Nhatava.
Alguns sites que escrevem sobre saúde reprodutiva indicam que as raparigas começam a ver o seu ciclo menstrual por volta dos 12 anos de idade, podendo acontecer até os 16. É nesta fase que surge um turbilhão de interrogações e sensações nas meninas, ao verem uma parte de si a sair do seu organismo. Para algumas, as dúvidas são dissipadas na hora, graças ao acompanhamento de uma pessoa mais próxima. Entretanto, para outras, a sua menstruação é tratada como um mistério.
A sociedade moçambicana, sobretudo nas comunidades rurais, tem muitas vezes visto esta bênção feminina como um horror. Em alguns contextos, por exemplo, as meninas são impedidas de executar certas tarefas caseiras, ou mesmo de comer isto ou aquilo, só por estarem a menstruar. Esses tabus conseguem, muitas vezes, destruir a sua auto-estima. Foi contra estes e outros aspectos nocivos à saúde mental e reprodutiva da mulher que Cídia, Júlia, Eleutéria e outras meninas se uniram, visando quebrar barreiras impostas ao ciclo menstrual.
Cídia Chissungo, Júlia Zandamela e Eleutéria Nhatava comungam um projecto – a Be Girl Moçambique, que está presente no país desde 2018
Mas afinal o que fazem elas?
Este grupo de meninas comunga um projecto – a Be Girl Moçambique, iniciativa também existente noutros países, que está presente entre nós desde 2018. Contam as moças que, no início, era apenas um projecto a nascer. Hoje em dia, mil e um passos já foram dados.
São dois os pilares que caracterizam a Be Girl: o empoderamento (através de acções educativas) e os produtos, sendo estes últimos pensos higiénicos reutilizáveis. É graças às acções educativas que pouco mais de 15 mil raparigas e rapazes sabem hoje melhor que não há tabu que explique a menstruação.
Os pensos higiénicos reutilizáveis, segundo as nossas promotoras, foram concebidos para resolver um problema que afecta imensas raparigas moçambicanas: a falta de condições financeiras para adquirir os pensos descartáveis. O que Cídia Chissungo, Júlia Zandamela e Eleutéria Nhatava fazem é material higiénico que pode ser utilizado por até dois anos, sempre que uma mulher estiver menstruada. É composto por uma calcinha e um penso. As duas peças são laváveis e permitem uso em vários períodos menstruais. Com o projecto, o grupo tem levado palestras às comunidades, sobretudo através das escolas, onde chegam mensagens estimuladoras do respeito pela rapariga e pelas suas escolhas. Aliás, Cídia Chissungo contou à Revista Xonguila que as palestras privilegiam incutir a necessidade de poder de escolha aos adolescentes e jovens. “Nós procuramos sempre fazer perceber às meninas que devem saber fazer as escolhas sobre si mesmas. A ideia é mostrarmos ao mundo que a menstruação não é nenhum horror, mensagem que também é destinada aos rapazes, pois eles devem respeitar as meninas”, esclarece. E como, por sua vez, disse Eleutéria, é uma empreitada que não tem fronteiras: “Este ano, por exemplo, conseguimos interagir com 4 mil jovens angolanos numa palestra feita virtualmente”.
Durante a conversa com as três moças, numa tarde de terça-feira, o sol foi desaparecendo despercebidamente. De repente, as luzes do escritório onde trabalham 8 ou mais horas diárias ficaram evidentes, a noite já se tinha instalado. A Xonguila insistiu ainda no porquê de o projecto levar às comunidades mensagens educativas acompanhando os produtos higiénicos, ao que Júlia Zandamela respondeu: “Não basta mostrar que existe um produto para resolver uma certa limitação; é importante passar novos conhecimentos sobre as questões com ele relacionadas. É preciso apresentarmos o penso higiénico reutilizável – o produto – e o conhecimento sobre a menstruação.” Na verdade, é com esse conhecimento que proporciona que a Be Girl consegue quebrar teias de estigma construídas por tabus e outras correntes.
Pensos ambientalmente sustentáveis
Os pensos higiénicos reutilizáveis não são apenas uma solução para aliviar a mulher dos custos na compra dos pensos descartáveis. Diz Cídia que eles vêm responder também aos apelos para protecção do meio ambiente. Os pensos descartáveis têm o potencial de poluir o ecossistema. Os pensos higiénicos reutilizáveis não possuem plástico, por isso a sua decomposição é rápida. “Nós desenhámos o produto pensando no meio ambiente. Estes pensos não possuem elementos químicos”, assegura Júlia Zandamela. E não é somente a ausência de plástico e outras substâncias químicas. É que os pensos reutilizáveis da Be Girl Moçambique podem ser utlizados por até dois anos, tempo suficiente para poupar o ambiente de resíduos sólidos.
Os pensos reutilizáveis da Be Girl Moçambique estão disponíveis, na cidade de Maputo, em algumas lojas que possuem parceria com o projecto. Não são grátis, custam 350 meticais cada, ainda um valor que muitas meninas não conseguem ter. Para que os pensos cheguem às raparigas sem nenhum custo, o projecto conta com parcerias de várias organizações que compram o produto, o que fazem, muitas vezes, no âmbito de responsabilidade social. Foi dessa forma que várias raparigas e mulheres na província de Sofala, em particular as vítimas do Ciclone Idai, e agora na província de Cabo Delgado puderam beneficiar do produto.
Para além dos pensos higiénicos, a Be Girl tem outros produtos para oferecer, como o copo menstrual, ainda poucas vezes divulgado, por causa do seu uso delicado. O conforto dos pensos, o detalhe no design e a atractividade das cores trouxeram a oportunidade de o projecto participar na Expo Dubai 2022. A estas virtudes se juntam, segundo Cídia Chissungo, a narrativa e linguagem com que é tratada a temática da menstruação junto dos jovens.
