Arte Daqui

O mundo fantástico de Ruth Banon

“Fui sempre muito criativa e desde pequenina que faço desenhos a lápis de carvão. É engraçado que, inicialmente, não utilizava cores. Fazia muitas coisas com as mãos, como bordado, carpintaria, entre outras actividades. A certa altura, fui a uma exposição de uma amiga que pintava em aguarela e fiquei encantada. Logo no dia seguinte, comprei um kit pequeno básico de aguarelas e comecei a pintar. Nessa altura tinha 21 anos. Durante a minha adolescência, preferia a música, e cheguei até a pertencer a um grupo. Não pintava desde a minha infância, mas comecei a interessar-me por esta técnica cada vez mais e, hoje, é a forma de expressão mais presente nas minhas ilustrações.

Sou ilustradora, faço peças isoladas, ilustro contos de livros, concebo capas de livros e cartazes. Produzo também produtos relacionados com a ilustração, tais como estojos, móveis, sacolas. Neste momento, tenho duas vias diferentes de trabalho, a ilustração em aguarela, que é muito inspirada na natureza e pela minha vida em Moçambique, e o collage, uma fusão feita de fotografias antigas, ilustração e botânica. Adoro pintar árvores, flores, vegetação em geral, paisagens, animais e o mundo africano, a natureza. Para mim, é uma viagem poética onde gosto de criar algo insólito, inesperado, uma poesia de representações. Um universo fantástico, por exemplo um menino a voar em cima de um pássaro ou um peixe em cima da cabeça de uma mulher; gosto de misturar o mundo animal com o mundo humano, para perceber a relação íntima que existe entre todos os seres vivos. Todos vimos da mãe-terra, e essa ligação interessam-me imenso. O que acaba por coincidir com o momento que estamos a viver actualmente a nível mundial; parece, de certa forma, que estamos a viver uma vida paralela. A nossa maior ligação à vida, apesar de ocuparmos as cidades, é a natureza, são os bosques, as flores, as montanhas, o mar e o oceano. Gosto muito de pesquisar, de ver as influências que existem nas representações de arte um pouco por todo o mundo, conhecer os povos através da sua expressão artística, desde a América do Sul, África e Ásia. Acabo por absorver alguma influência dessas formas.

Eu nunca fui a uma escola aprender a pintar, fui-me descobrindo aos poucos, num percurso muito íntimo e pessoal. Estudei antropologia em Espanha, mas a minha alma vai muito mais além. Admiro diversos ilustradores de todo o mundo, franceses, espanhóis, muita gente. Aprendi a observar outros ilustradores, e a beber dessas fontes, como também de livros de banda desenhada, essa foi a minha escola. Há muito talento em Moçambique, mas há 3 pessoas que admiro particularmente, o Luís Cardoso, o Samuel Djive e o Celestino Mugumela, cuja arte é das mais originais que alguma vez vi.

“Neste momento, tenho duas vias diferentes de trabalho, a ilustração em aguarela, que é muito inspirada na natureza e pela minha vida em Moçambique, e o collage, uma fusão feita de fotografias antigas, ilustração e botânica.” 

Tudo começa com o rabisco ou sketch num papel daquilo que pretendo desenhar. Algumas ideias básicas na mente, e começo a pintar, não faço muito trabalho prévio. Sou só eu, os pincéis e o papel. Normalmente trabalho com música e fico bastante concentrada. Nunca sei qual vai ser o resultado final, quando encontro uma ideia, deixo-me levar. A magia da aguarela é que nem sempre se pode controlar a técnica demasiado, é possível fazer-se aquilo que se pretende mais ou menos, no entanto podem ocorrer surpresas. Eu aproveito essas mesmas surpresas para fazer o desenho evoluir numa determinada direcção, e é interessante que, por vezes, ficam mais bonitos do que esperava. Não costumo interromper um trabalho, desistir por não estar a conseguir alcançar o resultado almejado. Começo e termino no mesmo papel. É uma viagem a que me entrego e fico satisfeita com a espontaneidade de cada momento. 
Em relação a outras formas de expressão artística, gosto de muito de música, adoro tocar pandeireta e cantar. Tenho uma marca chamada Saraba, e na minha antiga galeria, a Machamba Criativa, tinha bastantes artigos criados por mim, tais como bonecos para crianças, bijuteria em tecido ou cabedal, estojos, móveis, entre outras coisas. Amo criar objectos que tenham relação com a ilustração.

O mundo actual está marcado pela tecnologia, uma ferramenta que pode ser utilizada para criar e abrir novos espaços de criação. Ainda não domino muito, mas tenho aprendido algumas coisas, pois grande parte do meu trabalho é feito à mão, mas tem uma componente digital na collage. Há muitas coisas para fazer. Quero investigar, mas não tenciono deixar de fazer as coisas artesanalmente pois isso imprime o meu carácter e a minha personalidade. Eu pinto quase tudo com pincéis e lápis.

Os meus planos para o futuro passam por continuar a criar e aprender, aprender, aprender… Pretendo também crescer na minha profissão. Sinto-me privilegiada porque adoro o que faço, não vejo como uma obrigação, é como se estivesse a brincar como uma criança. Quero explorar novas técnicas, novos jeitos e formas de pintar, viajar e inspirar-me noutros lugares. Quero fazer exposições, lançar um livro de ilustração e desfrutar trabalhando, que, para mim, é o maior presente da vida. 
Para mais informações: Instagram/Facebook-@sarababyruthbanon