A jogadora de basquetebol eventualmente mais velha do mundo é de Moçambique, tem 59 anos e chama-se Ana Bela dos Reis Borges. Ana Bela é um exemplo de longevidade desportiva. Esta mãe, avó, empresária e atleta-presidente (Desportivo), provou que a idade é apenas um número, ao competir ao mais alto nível no último Campeonato Nacional de Basquetebol feminino disputado na cidade de Maputo (Liga Sasol 2022). 
Ana representou a equipa recreativa de Mucopelinhas, de Nacala. O campeonato foi conquistado pela equipa “canarinha” (alcunha do Costa do Sol), que bateu, na final, a turma “locomotiva” (alcunha do Ferroviário de Maputo), da capital. A equipa na qual joga a nossa entrevistada terminou a prova em sexto lugar e foi despromovida, devendo passar pela poule de apuramento para retornar à prova máxima do basquetebol nacional. Ana Bela afirma categoricamente que a equipa “voltará à elite do basquetebol nacional” com ela no comando, pois não pensa tão já retirar-se dos campos. “Não tenho a ideia de parar de jogar a curto prazo, aliás, sequer tenho intenções de parar. Quero jogar até aos 70 anos, se tudo correr bem. A não ser que haja um regulamento impeditivo”, afirma, com o entusiamo que a caracteriza, a veterana de 59 anos, quando questionada sobre a sua aposentação.

Mas, afinal de contas, quem é “dona Ana Bela” (assim tratada pelos colegas em campo), que virou a maior atracção da Liga Sasol? “Eu sou uma moçambicana com sangue crioulo. Nasci em Moçambique, mas os meus pais são cabo-verdianos. Em 1985, abandonei Moçambique devido à guerra civil e fui viver em Cabo-Verde. Só regressei ao país em 1993, depois do Acordo Geral de Paz, assinado em Roma”. Mas a paixão pelo desporto já existia muito antes da guerra e muito antes de Ana Bela partir. A veterana, agora à porta dos 60 anos, anda no desporto desde os seis anos de idade. Participou em dois campeonatos nacionais (2019 - 2022). Formada em Gestão e Contabilidade, é empresária, mãe de quatro filhos, atleta e presidente da equipa em que joga.

Derrubando estereótipos e preconceitos 
“Cada um tem a idade do seu coração, da sua experiência, da sua fé” (George Sand). Ana Bela é prova de que a idade pode não ser uma limitante para nada, e muito menos para sonhar. Ana ultrapassou a barreira de idade, mas reconhece que continua a existir preconceito em questões que “até deviam ser motivo de orgulho”. Esta guerreira tornou-se símbolo de resiliência e coragem para continuar a fazer aquilo que todos deviam fazer, a coisa que a faz sentir-se mais viva: o desporto, o basquetebol em particular. “Estar a competir com a idade que tenho tem o lado positivo e o lado negativo. Porque uns vêem-no com bons olhos, outros, com maus olhos. Eu peço às pessoas para não me incriminarem, não falarem mal de mim. Eu gosto de jogar, deixem-me jogar, por favor”, pede, com humildade, a “cinquentona” da bola ao cesto. “Jogar basquetebol na minha província na minha idade é um desafio muito grande, devido a estereótipos relacionados com a idade. Mas o que eu desejo, o que eu quero é jogar basquetebol. Portanto, não me interessa o que as pessoas pensam. Se o basquete, se o desporto me faz bem, não ouço e faço o que é melhor para mim, sempre foi assim na minha vida”, disse. Ana Bela acredita que o desporto é uma componente de visibilidade da mulher na sociedade e no espaço público. Muitos nomes que se destacaram como talentos desportivos são resultantes de lutas ao longo dos anos por conquistas nesse espaço dominado pelos homens. “Os factores socioculturais condicionam o envolvimento da mulher e da rapariga aqui em Nacala, onde a maior parte da população é muçulmana. Isso acaba influenciando o seu desenvolvimento e o seu futuro. Desejo ver mais mulheres e raparigas do meu distrito abraçando a modalidade desportiva.”

Jogando (também) pela vida
Ana Bela revela que não joga só para quebrar os estereótipos e preconceitos relacionados com a idade, joga pela própria vida. “Eu nasci com asma. Desde que me conheço como Ana Bela sei que sou asmática. Então, encontrei no desporto uma maneira de dilatar os meus pulmões e tenho menos crises de asma por ano”, frisou, considerando o desporto sua salvação, sua vida. “Eu fiquei um tempo parada, durante três anos, podem confirmar os médicos em Nacala, eu estava sempre nas urgências. Desde que voltei a praticar, desapareci das urgências, e até os médicos perguntam como estou e eu digo que estou óptima, que estou na melhor fase da minha vida. Para mim, o desporto é terapêutico para o meu corpo e para a minha alma”, afirmou.

Dona Ana provou que a idade não é um empecilho ao participar no último Campeonato Nacional de Basquetebol Feminino aos 59 anos. A idade não a impediu de competir ao mais alto nível, ombreando com jogadoras mais jovens. “Com esta idade, estar a treinar, estar a competir ao mesmo nível com as minhas colegas mais novas é uma superação pessoal. Enquanto o meu corpo permitir, enquanto tiver energia para jogar, nada nem ninguém me vai parar”, avisa. “O Basquetebol não pode morrer”, vaticina Ana, e pede apoio das autoridades e do empresariado local para desenvolver a modalidade da bola ao cesto e promover o empoderamento da mulher e da rapariga no distrito onde vive, Nacala-Porto, em Nampula. “Somos uma equipa nova, não temos ainda condições de ter um campo só nosso. Pedimos emprestado e muitas vezes têm-nos negado.

Com a nossa força de vontade e empenho, às vezes treinamos em frente da igreja, às vezes corremos pelas estradas de Nacala-Porto, fazemos caminhada, vamos à praia, todo um esforço para não deixar o basquetebol morrer em Nacala, mas falta-nos praticamente tudo, desde o equipamento, bolas, tabelas e todo o tipo de material inerente à prática de basquetebol”, frisou, lamentando as dificuldades que a equipa vem enfrentando ao longo dos anos. Entretanto, as dificuldades não tiram a vontade de continuar a lutar pelo desenvolvimento do desporto local. Ana sonha um dia ver o campeonato provincial de basquetebol, que acontece em Nampula, no seu distrito, e pede apoio ao empresariado e às autoridades locais para criarem condições para se reabilitar e construir novos campos que permitam a realização da prova. “Isso beneficiaria enormemente a indústria do turismo local porque iria trazer muitas caravanas com equipas de todas as regiões do país e causaria o impacto positivo que o desporto consegue dar. Nacala sairia a ganhar, o desporto também”, concluiu.

Fora das quatro linhas, Ana Bela dos Reis Borges é empresária no ramo de agronegócios, exercendo também as funções de Presidente da equipa em que joga.