A arte tem múltiplas formas de se manifestar, e Suneila Abdula encontrou caminho através da delicadeza dos fios e do ritmo compassado da agulha no tecido. Engenheira ferroviária de formação, Suneila descobriu no bordado um refúgio e, sem o prever, uma nova paixão que se transformaria na essência da sua marca, Su Entre Linhas.
Técnica ancestral, o bordado é uma linguagem de paciência e sensibilidade, um processo quase meditativo que permite transformar emoções em arte. Para Suneila, cada peça que cria é mais do que um simples trabalho manual – é uma história com linhas entrelaçada, com significado tanto para si como para quem a recebe. Com um olhar atento ao detalhe e uma dedicação profunda ao ofício, a fundadora da Su Entre Linhas partilha connosco a sua jornada, desde os primeiros pontos até à afirmação da sua identidade artística. Suneila fala sobre o percurso que a levou do universo ferroviário ao bordado, as inspirações que alimentam a sua criatividade e a forma como o trabalho artesanal se tornou um elo de conexão entre as suas emoções e o mundo.
Como descreve o tipo de bordados que faz e que nome dá ao seu trabalho?
O meu trabalho mistura o bordado livre com outras técnicas artísticas, como a pintura em aquarela sobre tecido, resultando em peças que são simultaneamente subtis e expressivas. Bordo principalmente porta-maternidades, porta-alianças e peças de decoração com elementos inspirados na natureza, na feminilidade e na literacia, sempre com o intuito de transmitir sentimentos e criar conexões. Costumo dizer que os meus bordados são mais do que decoração – são histórias contadas com linhas e cores.
Quando começou a trabalhar com bordados e o que a motivou a seguir este caminho?
Aprendi a bordar em 2021, de forma despretensiosa, como um passatempo e uma forma de terapia. Sempre tive uma inclinação para trabalhos manuais e a criatividade esteve presente na minha vida desde cedo, mas foi no bordado que encontrei um meio de expressão que me trouxe equilíbrio e bem-estar. À medida que fui aperfeiçoando a técnica e partilhando os meus bordados, percebi que havia algo de especial naquilo que fazia – não só para mim, mas também para quem via e recebia as peças que eu fazia de presente. Só comecei a empreender com o bordado mais de um ano depois de ter aprendido a bordar. O incentivo das pessoas à minha volta foi essencial para eu transformar esta paixão num trabalho.
Recebeu formação na área ou aprendeu de forma autodidacta?
Sou completamente autodidacta. Aprendi a bordar através de muita experimentação, pesquisa e prática. Passei horas a testar diferentes pontos, a combinar cores e a descobrir que materiais funcionavam melhor. O processo de aprendizagem foi (e continua a ser) um caminho de descoberta, onde cada novo bordado me ensina algo. Hoje, sinto-me confortável para partilhar este conhecimento com outras pessoas e incentivar quem quer iniciar-se no bordado.
Até hoje, quantos trabalhos já fez e há algum que se destaque como especial para si?
Por encomenda, já criei mais de 130 bordados, além de muitos outros que fiz por inspiração ou para oferecer a pessoas especiais. Cada peça tem o seu próprio significado, mas algumas marcaram-me particularmente. Um deles foi um bordado encomendado para celebrar os 50 anos de casamento de um casal – a cliente ficou tão emocionada com o resultado que me disse que a peça passaria a fazer parte da história da família. Também guardo com carinho os bordados personalizados que fiz para momentos únicos, como o porta-alianças que criei para o casamento de uma prima que é como uma irmã para mim. Cada peça carrega uma história, e esse é o maior encanto do bordado.
Como é a procura pelo seu trabalho? Há muitas encomendas e clientes interessados?
A procura pelo meu trabalho tem crescido organicamente, especialmente através do Instagram, onde partilho o meu processo e as peças finalizadas. Tenho tido um número consistente de encomendas e, embora nem sempre consiga aceitar todas, tento manter uma agenda organizada para dar resposta aos pedidos com a atenção que cada um merece. O facto de cada peça ser feita à mão e personalizada torna o processo mais demorado, mas os clientes valorizam essa exclusividade e o carinho colocado em cada detalhe.
Que tipo de feedback recebe do público? Há alguma história ou reacção que a tenha marcado?
O feedback tem sido muito positivo e motivador. Muitas pessoas dizem que os meus bordados lhes transmitem calma e delicadeza, e isso, para mim, é um dos maiores elogios. Já recebi mensagens emocionadas de clientes que encomendaram bordados para homenagear alguém especial ou para marcar momentos únicos das suas vidas, como a chegada de um bebé na família e a união de duas famílias. Lembro-me particularmente de uma cliente que me encomendou um porta-alianças para o seu casamento e, depois da cerimónia, partilhou comigo o quanto a peça foi admirada e se tornou um detalhe especial na celebração. Saber que o meu trabalho não só encanta visualmente, mas também cria memórias e ligações afectivas dá-me ainda mais vontade de continuar. É por momentos assim que este ofício vale a pena.
Onde se podem adquirir os seus trabalhos?
Os meus bordados podem ser adquiridos através da página do Instagram @su.entrelinhas, onde partilho o meu portefólio e abro agenda para encomendas personalizadas. Quem estiver interessado pode entrar em contacto comigo por mensagem para discutir ideias e detalhes.
Quais foram os maiores desafios que enfrentou nesta área e como os superou?
O maior desafio tem sido equilibrar o tempo entre o bordado e outras responsabilidades. Como cada peça exige muitas horas de trabalho, tento organizar melhor a minha agenda e estabelecer prazos realistas. Outro desafio foi acreditar no meu próprio valor como artista – no início, questionava se as pessoas realmente iriam valorizar o meu trabalho, mas, com o tempo e o retorno positivo dos clientes, ganhei mais confiança.
Qual foi o trabalho mais complexo ou demorado que já fez? Pode descrever a experiência?
Um dos bordados mais complexos que já fiz foi a borboleta que criei antes mesmo de começar a vender, e que mais tarde se tornou o símbolo da minha marca. Esse bordado tem um lugar especial no meu coração pelo que representou no meu percurso. Foi um processo longo, que durou cerca de três semanas, marcado por muita experimentação, erros, acertos e muitos ajustes. Mais do que uma peça, foi um aprendizado – tanto no bordado como em mim mesma. Apesar das imperfeições, gostei do resultado e ganhei confiança para criar outros bordados em pintura de agulha. Olhando para trás, vejo que foi um exercício de superação e um marco na minha decisão de empreender com os bordados.
Quais são os seus planos para o futuro? Pensa em expandir, criar novos produtos ou ensinar outras pessoas?
Quero continuar a explorar novas técnicas dentro do bordado e criar peças cada vez mais especiais. Em breve, irei realizar oficinas e cursos presenciais para ensinar esta arte a mais pessoas, pois acredito que o bordado tem um impacto muito positivo, não só como forma de expressão, mas também como uma prática terapêutica.
Para mais informações:
Instagram: @su.entrelinhas
WhatsApp: 869380755
