Durante séculos, o mapa mais difundido do mundo contou uma história enganosa sobre as dimensões do continente africano. Agora, África quer reescrever essa narrativa — com factos.

Na semana passada, a União Africana (UA), organização que congrega os 55 Estados do continente, deu o seu apoio formal a uma campanha que visa substituir o mapa de Mercator por projecções mais precisas, como o Equal Earth, lançado em 2018. A proposta não é meramente cartográfica: segundo os promotores, trata-se de uma correcção simbólica e política.

“Aparenta ser apenas um mapa, mas na realidade, não o é”, afirmou Selma Malika Haddadi, vice-presidente do braço executivo da UA, em entrevista à Reuters. Segundo Haddadi, a projecção de Mercator alimenta a ideia errada de que África é “marginal”.

Criado no século XVI pelo cartógrafo alemão Gerardus Mercator, este modelo foi concebido para facilitar a navegação marítima europeia, mas distorce as proporções dos continentes. Em certas versões, a Gronelândia — com menos de um milhão de milhas quadradas e menos de 57 mil habitantes — surge com tamanho semelhante ao de África, que tem 11,73 milhões de milhas quadradas e uma população de 1,5 mil milhões de pessoas.

Na projecção Equal Earth, o continente africano ocupa o espaço proporcional que lhe corresponde — eclipsando facilmente a Europa.

O movimento Correct the Map, liderado por organizações como Africa No Filter e Speak Up Africa, foi o impulsionador do pedido à UA. A adopção oficial do Equal Earth está agendada para Fevereiro de 2026, durante a cimeira de líderes africanos na Etiópia.

A campanha, que circula com uma petição online, pretende também pressionar entidades internacionais como as Nações Unidas e a BBC a fazerem a mudança, promovendo uma nova norma cartográfica que represente África com justiça.

A adesão da União Africana é, até agora, o maior trunfo da campanha — e, para os organizadores, um passo decisivo.

“É mais do que geografia; trata-se de dignidade e orgulho”, disse Fara Ndiaye, co-fundadora e vice-directora executiva da Speak Up Africa. “Os mapas moldam a nossa visão do mundo — e também a forma como percebemos o poder. Ao corrigir o mapa, corrigimos também a narrativa global sobre África.”

Num documento interno consultado pelo The New York Times, a UA afirma que esta iniciativa está alinhada com o seu tema para 2025: “Justiça para os africanos e para as pessoas de ascendência africana através de reparações”. O texto salienta ainda que a campanha combate narrativas falsas e ajuda o continente a recuperar o seu lugar legítimo no palco mundial.

Apesar disso, algumas agências ligadas à União Africana ainda exibiam, esta semana, o mapa de Mercator nos seus sites institucionais.