Numa noite que misturou literatura e outras artes de forma inovadora, a cidade de Maputo foi palco da performance “Não deixa arder até tarde o fogo”, uma adaptação multidisciplinar da obra “Criação do fogo” do poeta moçambicano Álvaro Fausto Taruma. Apresentada no Estúdio Criativo Anima, a performance reuniu um talentoso grupo de artistas que exploraram, através de diferentes linguagens artísticas, temas contemporâneos e urgentes, trazendo à tona uma nova maneira de experienciar a poesia.

“Não deixa arder até tarde o fogo” destacou-se pela sua abordagem inovadora, indo além da leitura tradicional de textos e transformando a obra “Criação do fogo” em uma experiência sensorial única. A performance combinou elementos de dança, teatro, música, poesia e projecções visuais para criar uma narrativa imersiva que prendeu a atenção do público do início ao fim.

Sob a direcção do próprio Álvaro Taruma, o espectáculo trouxe à tona questões centrais do livro, como os desafios ligados à violência, com foco no terrorismo em Cabo Delgado, além de ampliar o olhar para os conflitos armados que afligem outras regiões do mundo. A metáfora do fogo, central tanto no livro quanto na performance, foi explorada de modo a simbolizar a destruição, mas também a resistência e a renovação, reflectindo a complexidade do tema.

O espectáculo contou com as marcantes actuações do actor Mateus Nhamuche, da bailarina e coreógrafa Afifah Zualo, e do malabarista de fogos Filimão Francisco. A trilha sonora, composta por Fu da Siderurgia, envolveu o público, enquanto as projecções visuais de João Roxo criaram uma atmosfera que complementou a profundidade emocional das interpretações. Com uma duração de cerca de uma hora, “Não deixa arder até tarde o fogo” ofereceu uma imersão completa no universo literário e poético de Taruma, transformando a obra em algo que podia ser não apenas lido, mas também visto, ouvido e sentido.

A performance foi um exemplo notável de como as artes se podem entrelaçar para enriquecer a compreensão e a vivência da literatura. Taruma inovou transportando a sua obra para o palco de forma muito bem integrada com outras expressões artísticas. Em suas palavras, a ideia era criar uma forma de leitura que, não se limitando ao livro em si, integrasse diferentes disciplinas artísticas — música, dança, teatro, slam poetry — para ajudar os leitores a experimentar a poesia da maneira mais sensorial e visível possível. O título da peça, derivado do seu livro lançado em Abril deste ano, ecoa um apelo à cessação dos conflitos, simbolizado pelo fogo que não deve arder até tarde.

O processo de criação foi cuidadosamente pensado, desde a escolha dos artistas até a composição das trilhas sonoras e projecções visuais, com o objectivo de oferecer uma proposta nova ao público. Taruma também expressou o desejo de levar o espectáculo para outros espaços e públicos, ampliando o seu impacto cultural e social.

Com “Criação do fogo” recentemente nomeado como semifinalista do prestigiado Prémio Oceanos, ao lado de outras importantes obras de autores moçambicanos, lusófonos e não só, a performance “Não deixa arder até tarde o fogo” mostrou-se um marco cultural, sublinhando a capacidade de Taruma de provocar reflexão profunda e diálogo através de múltiplas formas de expressão artística. Este espectáculo inovador não só honrou a rica tradição literária do país, mas também mostrou como ela pode ser revitalizada e expandida por meio da colaboração artística e da exploração de novas formas de expressão. O impacto deixado certamente ecoará por muito tempo, inspirando novas formas de se pensar e vivenciar a literatura e a arte.