Depois de quatro intensas campanhas de exploração e uma investigação meticulosa que implicou inovadoras técnicas de identificação de locais paleontológicos, a equipa do Projecto Paleo-Primata da Gorongosa divulga agora uma série de fósseis inéditos do Miocénico, oriundos das florestas costeiras situadas na região sul do Grande Vale do Rift, localizado no Parque Nacional da Gorongosa em Moçambique.

O período Miocénico, que ocorreu há cerca de 23 a 5,3 milhões de anos, representou uma fase crucial na evolução dos ecossistemas africanos. Testemunhou não apenas a emergência dos grandes primatas do continente, mas também a separação progressiva das florestas litorais orientais devido à expansão de zonas áridas. O recente estudo, divulgado na revista iScience, traz à luz achados fósseis notáveis no Parque Nacional da Gorongosa, remontando ao Miocénico, proporcionando assim uma nova perspectiva sobre um território africano até agora inexplorado do ponto de vista paleontológico.

Os locais onde foram encontrados os fósseis na Gorongosa albergaram uma surpreendente variedade de espécimes únicos, incluindo madeiras fossilizadas, tais como mogno africano, invertebrados e vertebrados marinhos, répteis e novas espécies de mamíferos terrestres. Este conjunto distintivo não é encontrado em nenhum outro local do sistema de falhas do Vale do Rift.

Actualmente situados a uns meros 95 km da costa contemporânea e a uma elevação que varia entre 100 e 120 metros acima do nível do mar, estes locais desvendam indícios geológicos, sedimentológicos, paleobotânicos e geoquímicos que evidenciam a existência de antigas zonas costeiras, apresentando as primeiras provas de bosques e florestas litorais na região sudeste de África durante o Miocénico.

A descoberta destes sítios paleontológicos no Parque Nacional da Gorongosa proporciona uma oportunidade única para compreender melhor a fauna e os habitats do antigo continente africano. Os achados na Gorongosa, que estão agora a ser documentados, vão constituir uma base de dados robusta que vai permitir testar e avaliar teorias importantes acerca do papel das florestas litorais orientais na evolução dos mamíferos africanos.