O Parque Nacional da Gorongosa voltou a colocar Moçambique no centro das atenções internacionais. Mais de duas décadas de recuperação da vida selvagem, investigação científica e desenvolvimento das comunidades valeram ao Projecto de Restauração da Gorongosa o Prémio Legado E.O. Wilson para Liderança Transformadora na Conservação, uma distinção internacional que reconhece iniciativas com impacto na protecção da biodiversidade.
A distinção foi entregue a 12 de Outubro de 2026, durante as celebrações do Half-Earth Day, no histórico Sanders Theatre da Universidade de Harvard, em Cambridge, Massachusetts, nos Estados Unidos da América. A cerimónia reuniu cientistas, conservacionistas e representantes institucionais para homenagear um projecto que transformou uma paisagem profundamente afectada pela guerra num dos exemplos mais expressivos de recuperação ecológica em África.
Aurora Malene, Presidente do Projecto de Restauração da Gorongosa, recebeu o galardão das mãos da Dra. Paula J. Ehrlich, Presidente e Directora Executiva da Fundação E.O. Wilson para a Biodiversidade, em representação dos cientistas, fiscais de conservação e equipas que trabalham nas comunidades vizinhas do Parque, nas áreas da educação, saúde, silvicultura e agricultura.
A Gorongosa tornou-se, assim, a segunda entidade distinguida com o prémio, criado em 2025 e atribuído pela primeira vez ao actor e conservacionista norte-americano Harrison Ford.
A passagem simbólica do testemunho aconteceu através de uma mensagem em vídeo, na qual Ford recordou a profunda ligação do biólogo Edward O. Wilson à Gorongosa e destacou o compromisso dos profissionais moçambicanos com a preservação daquele património natural.
“O Ed Wilson adorava a Gorongosa. Dizia que estava tal como era antes da chegada da humanidade”, recordou o actor.
Ford sublinhou que os fiscais, cientistas, professores, médicos e jovens moçambicanos envolvidos no projecto dedicaram mais de 20 anos à protecção e recuperação do Parque, considerando a distinção plenamente merecida.
A cerimónia começou com a exibição de um filme narrado por Greg Carr, que revisitou as experiências de Wilson na Gorongosa e apresentou o trabalho dos jovens investigadores moçambicanos que hoje dão continuidade ao seu legado científico.
Na sua intervenção, Aurora Malene procurou traduzir o significado mais profundo da restauração ambiental, para além dos resultados visíveis na recuperação da fauna e dos ecossistemas.
“Talvez a maior medida da restauração não seja apenas aquilo que trazemos de volta. É aquilo que tornamos possível”, afirmou.
Após o discurso, Malene participou numa conversa em palco com a Dra. Susana Carvalho, Directora de Ciência da Gorongosa, moderada pela apresentadora Adrienne Keene.
Entre os convidados esteve o Embaixador de Moçambique nos Estados Unidos da América, Alfredo Nuvunga, que integrou a delegação moçambicana presente na cerimónia.
Para o diplomata, o significado da Gorongosa ultrapassa as fronteiras da conservação ambiental e reflecte a própria trajectória histórica do país.
“Para Moçambique, a Gorongosa é muito mais do que um parque nacional. É um símbolo vivo de paz, reconciliação, resiliência e esperança”, declarou.
Nuvunga considerou que a recuperação do Parque demonstra como a natureza e as comunidades podem reconstruir-se depois de períodos de adversidade, estabelecendo um paralelo entre a transformação da Gorongosa e a capacidade de renovação de Moçambique.
Da devastação à recuperação da vida selvagem
A história recente da Gorongosa é marcada por uma das mais profundas transformações ecológicas registadas no país.
Entre 1972 e 2000, sobretudo devido à guerra civil moçambicana e às suas consequências, o Parque perdeu mais de 90% dos seus grandes animais. Populações inteiras de mamíferos foram drasticamente reduzidas, deixando um dos mais importantes ecossistemas africanos numa situação de extrema vulnerabilidade.
O processo de restauração começou no início dos anos 2000 e ganhou uma nova dimensão em 2008, com o estabelecimento de uma parceria público-privada entre o Governo de Moçambique e a Fundação Carr.
Desde então, a recuperação da biodiversidade tem sido acompanhada por investimentos na investigação científica, formação de quadros nacionais e melhoria das condições de vida das populações que habitam as zonas próximas do Parque.
Os resultados revelam a dimensão dessa transformação.
Actualmente, a Gorongosa apresenta uma biomassa de fauna bravia superior à registada na década de 1960, antes do conflito civil, ultrapassando os 100% do valor de referência daquele período.
Espécies como elefantes, pivas, impalas, changos, cudos e inhalas voltaram a ocupar extensas áreas do território, acompanhadas por uma grande diversidade de aves, répteis, anfíbios e peixes.
A recuperação dos leões constitui um dos indicadores mais expressivos deste processo. Em 2004, a população não chegava a dez indivíduos. Hoje, ultrapassa os 250 animais.
Estes números traduzem uma transformação que, para os responsáveis pelo projecto, não se limita ao regresso da fauna: representa também a reconstrução das condições necessárias para garantir a sobrevivência dos ecossistemas a longo prazo.
O legado científico de E.O. Wilson
A ligação de Edward O. Wilson à Gorongosa começou em 2008, quando Greg Carr acabara de estabelecer o acordo com o Governo moçambicano para restaurar o Parque.
Carr, que considerava Wilson o biólogo mais influente desde Charles Darwin, partilhou com ele a notícia da parceria.
A reacção do cientista ficou-lhe gravada na memória.
“Ele olhou para mim e disse: ‘Isso põe-me o coração aos saltos’”, recordou Carr.
Wilson visitaria a Gorongosa por três ocasiões, permanecendo aproximadamente um mês em cada deslocação.
Durante essas expedições, ele e a sua equipa identificaram mais de 200 espécies de formigas, incluindo 20 até então desconhecidas pela ciência.
O cientista envolveu também jovens moçambicanos nas actividades de investigação, acolhendo-os como assistentes de campo e contribuindo para despertar novas vocações científicas.
A experiência inspirou parte da obra A Window on Eternity, publicada em 2014, na qual Wilson apresentou a extraordinária riqueza biológica da Gorongosa.
O seu nome permanece associado ao principal centro de investigação do Parque, o Laboratório de Biodiversidade E.O. Wilson, localizado em Chitengo, onde continua a desenvolver-se uma parte significativa do trabalho científico agora reconhecido internacionalmente.
Investigação moçambicana ganha projecção internacional
A ciência tornou-se um dos pilares fundamentais da recuperação da Gorongosa.
Actualmente, mais de 80 universidades colaboram em actividades de investigação no Parque, incluindo instituições de referência internacional como Harvard, Princeton, Stanford, Oxford, Cambridge e Lyon.
Os trabalhos científicos realizados na paisagem da Grande Gorongosa permitiram documentar mais de oito mil espécies, das quais aproximadamente 200 eram desconhecidas pela ciência.
A formação de investigadores moçambicanos ocupa um lugar central nesta estratégia.
O Parque acolhe o único Mestrado em Biologia da Conservação do mundo realizado integralmente dentro de um parque nacional, tendo já formado 48 estudantes moçambicanos.
Os antigos alunos desempenham actualmente funções em parques nacionais, universidades e instituições governamentais, contribuindo para o fortalecimento da capacidade científica e técnica do país.
Paralelamente, seis membros das equipas do Parque conquistaram bolsas competitivas para programas de doutoramento em universidades de referência no Reino Unido, em Portugal e na África do Sul.
A produção científica ultrapassa já uma centena de artigos publicados em revistas especializadas.
Entre os estudos de maior projecção internacional destaca-se uma investigação publicada na revista Science, que demonstrou como décadas de caça furtiva para obtenção de marfim contribuíram para o aumento da proporção de elefantes sem presas.
Outro trabalho, divulgado na iScience, documentou a descoberta dos primeiros sítios fossilíferos do extremo sul do Sistema de Rift Africano, ampliando o conhecimento sobre a história geológica e biológica daquela região.
A investigação continua a revelar novas dimensões da biodiversidade local.
Em Julho de 2026, uma equipa do Laboratório de Biodiversidade E.O. Wilson, liderada pelo Dr. Jacinto Mathe e coordenada pelo Eng.º Dadzie Tarua, realizou uma expedição científica de 11 dias.
Durante esse período, foram registados cerca de 592 táxones de plantas, animais e fungos.
Destes, 48 nunca tinham sido anteriormente documentados no Parque, incluindo 25 insectos, 20 fungos, duas plantas e uma espécie de rã identificada como Afrixalus crotalus.
Os investigadores identificaram ainda um escaravelho-de-esterco do género Drepanocerus, que poderá representar uma espécie nova para a ciência.
Para Susana Carvalho, estes avanços demonstram a importância de colocar os investigadores nacionais no centro da produção de conhecimento.
“O nosso trabalho é hoje liderado por cientistas moçambicanos e reflecte a própria essência daquilo que a Gorongosa representa: a ciência ao serviço das pessoas e da natureza. Acreditamos que a ciência só tem valor se formar pessoas a par do conhecimento”, afirmou.
Greg Carr reforçou a mesma perspectiva, defendendo que a investigação científica deve orientar a gestão dos ecossistemas, proteger a biodiversidade e contribuir simultaneamente para o desenvolvimento humano sustentável.
“A ciência está no centro”, sintetizou.
Uma distinção que reconhece resultados concretos
Instituído em 2025 pela Fundação E.O. Wilson para a Biodiversidade, o Prémio Legado E.O. Wilson para Liderança Transformadora na Conservação distingue personalidades e organizações que contribuem de forma excepcional para a protecção da diversidade biológica.
O reconhecimento assenta em três dimensões fundamentais: a contribuição científica para a conservação, o envolvimento da sociedade e a capacidade de mobilizar iniciativas que produzam resultados mensuráveis.
A distinção procura perpetuar a visão de Wilson, segundo a qual a humanidade encontra uma das suas expressões mais nobres quando enfrenta grandes desafios em defesa de todas as formas de vida.
A edição de 2026 do Half-Earth Day teve também um significado particular, ao assinalar o décimo aniversário do lançamento do movimento Half-Earth.
A iniciativa nasceu do apelo de Wilson à protecção de metade das terras e dos oceanos do planeta, com o objectivo de assegurar condições para a sobrevivência das restantes formas de vida.
A celebração foi organizada conjuntamente pelo Harvard Museum of Comparative Zoology, Harvard University Herbaria, Harvard University Native American Program, Salata Institute for Climate and Sustainability da Universidade de Harvard e Fundação E.O. Wilson para a Biodiversidade.
Um legado que ultrapassa gerações
Edward O. Wilson, que viveu entre 1929 e 2021, foi uma das figuras mais influentes da biologia contemporânea.
Professor da Universidade de Harvard, destacou-se como autoridade mundial no estudo das formigas e tornou-se uma referência internacional na investigação e defesa da biodiversidade.
Ao longo da sua carreira, recebeu duas vezes o Prémio Pulitzer e foi distinguido com a Medalha Nacional de Ciência dos Estados Unidos.
Frequentemente descrito como o pai da biodiversidade, Wilson deixou uma herança científica que continua a orientar investigadores e organizações de conservação em diferentes regiões do mundo.
Na Gorongosa, essa herança permanece visível nos laboratórios, nas expedições científicas, na formação de jovens investigadores e no trabalho diário de protecção da vida selvagem.
Ao recordar o cientista, Greg Carr destacou uma dimensão que, na sua perspectiva, ultrapassava a grandeza intelectual de Wilson.
“O Ed Wilson foi um grande homem, mas foi também um homem bom. E não é muito frequente essas duas qualidades juntarem-se na mesma pessoa.”
O prémio agora atribuído à Gorongosa representa, por isso, mais do que o reconhecimento de uma recuperação ambiental. Assinala a continuidade de um projecto em que a ciência, a conservação e o desenvolvimento humano se encontram ligados, com uma nova geração de moçambicanos a assumir a responsabilidade de preservar e aprofundar esse legado.
