Juntar Mia Couto e Fábio Porchat à mesma mesa não é, à partida, uma combinação evidente. Um escritor conhecido pela delicadeza com que reinventa palavras e histórias, um humorista habituado à rapidez da piada e à energia do palco. Foi precisamente nessa distância aparente que Stewart Sukuma encontrou a matéria-prima para criar a Conversafiada, um novo conceito que quer fazer dos encontros improváveis um espaço de descoberta.


A primeira edição reuniu os dois convidados para uma conversa que atravessou Moçambique e Brasil, literatura, humor, cultura, experiências pessoais e a relação entre os países de língua portuguesa. Pelo meio, houve perguntas do público, gastronomia moçambicana e momentos em que a conversa simplesmente seguiu o seu próprio caminho. A ideia começou com uma sugestão. “A Ana Girão foi cúmplice neste crime. Foi ela quem me sugeriu uma conversa com o Fábio Porchat. A partir dessa ideia, eu desenhei o resto e pensei: e se juntássemos o Porchat ao Mia Couto?”, conta Stewart Sukuma. A combinação pareceu-lhe suficientemente inesperada para funcionar. “Pareceu-me uma combinação improvável e foi precisamente essa improbabilidade que me interessou.” Com o apoio de Zacarias Buque, que tornou possível a participação de Fábio Porchat, estava criado o ponto de partida para um formato que Stewart pretende levar mais longe.

Entre a conversa afiada e a conversa fiada

O próprio nome ajuda a perceber o espírito da iniciativa. Conversafiada pode ser lido de duas maneiras: conversa afiada e conversa fiada. “A conversa pode ser inteligente, provocadora, profunda e afiada, mas também pode simplesmente ser conversa fiada, aquela conversa aparentemente desnecessária que, muitas vezes, acaba por ser a mais interessante.” Não havia, por isso, intenção de construir uma entrevista tradicional ou conduzir os convidados através de um percurso demasiado previsível. A proposta era criar condições para que a conversa encontrasse o seu próprio rumo. “Queria exactamente essa liberdade: não saber antecipadamente onde a conversa vai chegar.” E foi nesse território menos controlado que começaram a surgir as afinidades entre duas personalidades aparentemente distantes. “O que me surpreendeu foi a facilidade com que dois universos aparentemente tão diferentes encontraram pontos de contacto”, recorda Stewart. “Talvez seja esse o maior mérito de uma boa conversa: descobrirmos que aquilo que nos separa é muitas vezes menos importante do que aquilo que temos em comum.”

Dois observadores e um provocador

Para Stewart Sukuma, o contraste entre Mia Couto e Fábio Porchat não desapareceu durante o encontro. Pelo contrário, tornou-se uma das suas maiores forças. “O Mia é mais reservado, quase silencioso, enquanto o Fábio é extrovertido e ocupa o espaço com uma energia muito própria. O Mia é um inventor de palavras, o Fábio é um inventor de piadas.” Por detrás dessas diferenças, Stewart encontrou uma característica comum.  “Os dois são grandes observadores. Têm maneiras diferentes de olhar para o mundo, mas existe nos dois uma enorme curiosidade sobre o ser humano e sobre aquilo que os rodeia.” E onde se coloca o próprio Stewart nessa equação?
“Eu sou o agente provocador. A minha função era criar o encontro, lançar a faísca e depois deixar a conversa acontecer.” É uma definição que poderá tornar-se central nas próximas edições da Conversafiada. Mais do que assumir o papel convencional de entrevistador, Stewart pretende criar o contexto, aproximar universos e introduzir estímulos suficientes para que os convidados façam o resto. “Talvez seja essa a verdadeira fórmula da Conversafiada: dois observadores muito diferentes e um provocador no meio.”

Uma lusofonia de dois sentidos

Entre os vários caminhos percorridos pela conversa, a relação cultural entre os países de língua portuguesa ganhou particular relevância. Para Stewart Sukuma, existe ainda um desequilíbrio na forma como essa circulação acontece. Países como Moçambique consomem regularmente produção cultural brasileira e portuguesa, mas o movimento inverso continua longe de ter a mesma dimensão. “Talvez tenhamos de começar a falar menos de lusofonia como conceito e mais de reciprocidade entre os seus membros. ” Essa reciprocidade, defende, passa por criar oportunidades reais para os artistas e criadores moçambicanos chegarem a outros públicos. “Temos de criar condições para que os criadores moçambicanos também circulem, sejam vistos, ouvidos e lidos nos outros países de língua portuguesa.” Para Stewart, não basta partilhar uma língua para que exista verdadeiramente uma comunidade cultural. “Uma comunidade cultural só existe verdadeiramente quando existe troca. Não pode ser uma estrada de sentido único.”

O público também conversa

A Conversafiada procurou igualmente quebrar a fronteira entre quem está no palco e quem está sentado na plateia. O público teve oportunidade de colocar perguntas aos protagonistas e entrar directamente na conversa. Stewart admite, aliás, que gostaria de ter visto ainda maior participação. “Até achei que houve poucas intervenções. Estava à espera de mais perguntas e mais participação, mas o tempo era limitado.” A intenção é que essa relação se torne cada vez mais importante no formato. “O público não deve estar ali apenas para assistir. Deve ser parte da conversa. A reciprocidade é essencial: nós damos qualquer coisa ao público, mas o público também tem de nos devolver qualquer coisa.”
Quando a gastronomia entra na conversa
A experiência ganhou outra dimensão com a participação do Chef Graça, responsável por uma prova às cegas que levou sabores moçambicanos até aos convidados e abriu espaço para falar de gastronomia, identidade e memória. A escolha não foi um elemento decorativo. Para Stewart, fazia sentido que uma conversa sobre cultura ultrapassasse os territórios mais óbvios. “A cultura não está apenas nos livros, nos palcos ou nos museus. Está também naquilo que comemos, nos sabores que reconhecemos e nas memórias que esses sabores despertam.” A prova às cegas trouxe ainda um lado lúdico ao encontro, permitindo que a gastronomia fosse experimentada e não apenas discutida. “A prova às cegas foi uma forma divertida de colocar a gastronomia moçambicana dentro da conversa e, ao mesmo tempo, criar uma experiência para o público.” Literatura, humor, música e gastronomia acabaram, assim, por partilhar o mesmo espaço, antes de a noite terminar num ambiente descontraído de convívio.

Um formato que veio para ficar

A primeira Conversafiada serviu também para testar uma ideia que Stewart Sukuma já imagina para lá desta edição. O objectivo não é transformar o conceito numa sucessão de entrevistas perante uma plateia, mas continuar a misturar pessoas e linguagens. “Não quero que a Conversafiada seja apenas uma entrevista com público. Quero cruzar pessoas, linguagens e expressões artísticas.” Literatura, música, cinema, humor, gastronomia e artes visuais podem fazer parte desse universo. A regra, se existe uma, parece ser evitar aquilo que seria demasiado previsível. “O contraste é importante para mim. É precisamente no contraste que muitas vezes nasce algo interessante.” Stewart confirma, por isso, que a experiência não termina no encontro entre Mia Couto e Fábio Porchat. “A Conversafiada veio para ficar.” As próximas edições deverão continuar a aproximar personalidades nacionais e internacionais, mantendo a lógica de confronto criativo. “Quero continuar exactamente apostado no contraste: pessoas diferentes, universos diferentes, opiniões diferentes. Quanto menos óbvio for o encontro, mais me interessa.” A data e os próximos protagonistas permanecem, para já, em segredo. Stewart deixa apenas uma pista. “Se a primeira foi uma conversa entre Mia Couto e Fábio Porchat, podem esperar que a próxima continue a contrariar expectativas.” Talvez seja essa, afinal, a melhor definição da Conversafiada: colocar à mesma mesa pessoas que ninguém pensaria juntar e deixar que a conversa faça o resto.