O sistema visa manter as centrais fotovoltaicas operacionais mesmo após o pôr-do-sol, garantindo um fluxo contínuo de energia limpa. Cada satélite, com apenas 16 kg, será capaz de iluminar áreas com cerca de sete quilómetros de diâmetro. Os utilizadores poderão requisitar luz através de uma plataforma online, transformando a Reflect Orbital num “sol sob encomenda”.
A empresa submeteu recentemente um pedido de licença à Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos (FCC), com o objectivo de lançar um satélite experimental. O plano a longo prazo é ambicioso: construir uma constelação de cerca de 4000 satélites até 2030. A promessa é clara — fornecer uma fonte de energia sustentável e universal, mesmo em zonas remotas, reduzindo a dependência de combustíveis fósseis.
No seu portal oficial, a Reflect Orbital divide os serviços em dois eixos:
Luz – iluminação nocturna para zonas urbanas e rurais, explorações agrícolas, emergências e operações de defesa.
Energia – captação e redireccionamento da luz solar para centrais energéticas.
A empresa anunciou ainda o lançamento, até à Primavera de 2026, de uma série de demonstrações públicas limitadas — a “World Tour” — em dez locais simbólicos à escala global. A fase de expansão plena virá depois.
Uma visão ofuscada por preocupações
Apesar do potencial transformador, os alertas não tardaram a surgir. Cientistas e astrónomos levantam sérias reservas quanto ao impacto deste “sol artificial” sobre o céu nocturno e a investigação científica.
Anthony Tyson, cientista-chefe do prestigiado Observatório Rubin, alertou que iluminar a Terra com milhares de satélites brilhantes poderá ser “potencialmente devastador” para a astronomia óptica. Com efeito, a intensidade da luz reflectida por cada satélite poderá superar o brilho da Lua, comprometendo observações sensíveis e projectos de vanguarda em telescopia.
Paralelamente, cresce a apreensão em torno da chamada Síndrome de Kessler — um cenário teórico em que a acumulação de lixo espacial e a proliferação de objectos na órbita baixa da Terra aumenta exponencialmente o risco de colisões. O plano da Reflect Orbital, ao introduzir milhares de novos corpos celestes artificiais, poderá contribuir para esse caos orbital.
Há ainda um entrave mais elementar: o céu. O sistema depende de condições atmosféricas ideais, uma vez que a luz reflectida apenas pode ser direccionada eficazmente em céus desobstruídos, o que limita significativamente o alcance do projecto em áreas com elevada nebulosidade.
Em suma, embora a Reflect Orbital pretenda reinventar a forma como o planeta acede à luz e à energia, fá-lo sob um manto de incerteza, onde o progresso tecnológico colide com os limites da natureza — e com os alertas da ciência.
