O lobolo, um costume que resiste ao tempo

O lobolo é uma tradição centenária cultivada até hoje no sul de Moçambique. Segundo esta tradição, a família da noiva recebe dinheiro e/ou outros bens oferecidos pela família do noivo, definidos num processo de negociação. A entrega é feita numa cerimónia com comida e bebida, que pretende, para além de unir as duas famílias impondo direitos e obrigações, pedir aos antepassados que abençoem o novo lar e, sobretudo, que dêem fertilidade ao casal.

Tradicionalmente, o rito representava uma compensação à família da noiva, legalizando a união e a transferência da capacidade reprodutora da mulher para o grupo familiar do marido, de que ela passava a fazer parte, dava estabilidade à união matrimonial, tornando o marido e a respectiva família responsáveis pela manutenção e bem-estar da mulher lobolada, legitimava os filhos do casal, que se considerava pertencerem à família que havia pago o lobolo, e constituía um meio de aquisição para o grupo da mulher, que se achava enfraquecido.

Apesar deste costume ter sido tema de muitas controvérsias nas primeiras décadas do Moçambique independente, que tentou desvalorizar algumas das antigas tradições, o lobolo resistiu, e, nos dias de hoje, imensos jovens e menos jovens o apreciam e praticam, agora ligando alguns aspectos da tradição à modernidade. Para muitos, o lobolo representa o respeito que o noivo e a sua família têm pela família da noiva por esta ter criado e educado aquela mulher. No entanto, nas zonas rurais, em muitas comunidades, o lobolo continua a ter as mesmas características e funções que tinha no passado, acabando por ser considerado mais importante do que o casamento civil ou religioso.

Por curiosidade se diga que Nelson Mandela, quando presidente da África do Sul, ofereceu como lobolo 55 cabeças de gado à família de sua esposa Graça Machel (então viúva de Samora Moisés Machel, primeiro presidente de Moçambique), com quem se casou em 1996.

Existem em outras culturas africanas, e não só, ritos semelhantes ao lobolo, de Moçambique. Um exemplo é o chamado alambamento, praticado pelos ambundos em Angola.