À primeira vista, dificilmente seriam escolhidos como símbolo da longevidade. Vivem debaixo da terra, não têm pelos e o corpo alongado faz com que sejam frequentemente comparados a pequenas linguiças com dentes. Mas é precisamente no organismo do rato-toupeira-pelado que os cientistas encontraram uma pista genética que pode ajudar a compreender por que razão estes animais vivem tanto tempo.

Um estudo concluiu que o rato-toupeira-pelado desenvolveu, ao longo da evolução, um mecanismo particularmente eficaz de reparação do DNA, característica que poderá estar relacionada com a sua extraordinária longevidade.

Esta espécie de mamífero vive em tocas e pode atingir cerca de 40 anos de idade, um período excepcionalmente longo para um roedor. É, aliás, considerado o roedor com maior longevidade conhecida no planeta.

As conclusões do estudo foram publicadas pela revista científica Science em Outubro de 2025. Os resultados poderão também ajudar a explicar outra particularidade destes animais: a resistência a várias doenças normalmente associadas ao envelhecimento.

Os ratos-toupeiras-pelados apresentam resistência ao cancro, à artrite e à deterioração do cérebro e da medula espinal. Estas características transformaram-nos num objecto privilegiado de investigação para cientistas que procuram compreender os mecanismos biológicos do envelhecimento.

A investigação foi liderada por uma equipa da Universidade Tongji, em Xangai, na China, e concentrou-se no processo de reparação do DNA, um mecanismo natural e essencial que ocorre nas células do organismo.

Quando uma cadeia de DNA — que contém parte da informação genética necessária ao funcionamento do corpo — sofre danos, as células activam sistemas capazes de recorrer a uma sequência não danificada como modelo para corrigir a zona afectada.

Foi precisamente nesse processo que os investigadores encontraram uma diferença surpreendente.

A equipa concentrou-se numa proteína chamada cGAS, envolvida na detecção de alterações celulares e em vários mecanismos de resposta a danos.

Nos seres humanos, esta proteína pode interferir com determinados processos de reparação do DNA. Os cientistas acreditam que essa interferência poderá contribuir para o desenvolvimento de cancro e, potencialmente, para a redução da longevidade.

No rato-toupeira-pelado, porém, acontece exactamente o contrário.

Os investigadores descobriram que a versão da cGAS presente nestes animais favorece a reparação das cadeias de DNA e ajuda a preservar a integridade do código genético das células.

Para Gabriel Balmus, professor da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, especializado em reparação do DNA e envelhecimento, a descoberta abre uma nova frente de investigação sobre os mecanismos que permitem a estes roedores viver durante tanto tempo.

O investigador considera que os resultados representam apenas “a ponta do iceberg” na tentativa de perceber o que torna a biologia do rato-toupeira-pelado tão invulgar.

“Pode pensar-se na cGAS como uma peça biológica de Lego”, explicou Balmus. “O formato básico é o mesmo nos seres humanos e nos ratos-toupeiras-pelados. Mas, no rato-toupeira, alguns conectores estão invertidos, permitindo montar uma estrutura e uma função completamente diferentes.”

Segundo o cientista, milhões de anos de evolução parecem ter permitido ao rato-toupeira-pelado reprogramar um mecanismo biológico já existente e utilizá-lo em benefício próprio.

A descoberta levanta agora novas perguntas.

Como conseguiu a evolução fazer com que a mesma proteína desempenhasse funções praticamente opostas em espécies diferentes? Que alterações ocorreram durante esse processo? E será esta transformação um caso isolado ou parte de um padrão evolutivo mais amplo?

Para os investigadores, existe ainda uma questão com implicações directas para os seres humanos: será possível aprender com estes animais a prevenir doenças associadas à idade e prolongar os anos de vida saudável?

É essa possibilidade que torna o rato-toupeira-pelado especialmente interessante para a medicina.

“Penso que, se conseguirmos fazer engenharia reversa da biologia do rato-toupeira-pelado, poderemos desenvolver muitas das terapias necessárias para uma sociedade que está a envelhecer”, afirmou Gabriel Balmus.

Debaixo da terra, portanto, um dos mamíferos de aparência mais improvável poderá estar a guardar uma das pistas mais promissoras para compreender um dos grandes desafios da ciência moderna: envelhecer durante mais tempo sem perder saúde.