O Porto da Beira voltou a assumir um papel central no abastecimento alimentar de Moçambique, numa operação que poderá marcar uma mudança significativa na forma como o país gere a importação de cereais. Um novo mecanismo coordenado pelo Instituto de Cereais de Moçambique (ICM) permitiu a descarga simultânea de cerca de 32 mil toneladas de arroz e trigo, reduzindo atrasos operacionais e evitando custos logísticos que anteriormente ultrapassavam os 750 mil dólares em sobre-estadia de navios.
A operação foi acompanhada no terreno pela Direcção-Geral do ICM, durante uma visita de monitoria ao Porto da Beira, na província de Sofala. A iniciativa integra o processo de implementação do Diploma Ministerial n.º 31/2026, de 24 de Abril, instrumento que estabelece novas regras de coordenação para a importação de arroz e trigo destinados ao mercado nacional.
No momento da visita decorriam operações em diferentes pontos da infra-estrutura portuária. No Terminal BGT, instalado no Cais 10, o navio Lale S descarregava 15 mil toneladas de trigo pertencentes à MEREC. Ao mesmo tempo, no Cais 6, o navio Grampus efectuava a descarga de aproximadamente 17 mil toneladas de arroz importadas pelas empresas Olam, MOI Foods, Care Trading, Nova Trading, Futur Comercial e Aditya Birla Global Trading.
No total, as cerca de 32 mil toneladas de cereais introduzidas através do Porto da Beira destinam-se ao reforço do abastecimento alimentar da região centro e do mercado nacional, numa altura em que a estabilidade do fornecimento de produtos básicos continua a ser considerada estratégica para o país.
Segundo o ICM, todos os operadores envolvidos possuem processos de importação devidamente regularizados, condição essencial para beneficiar do novo regime de prioridade de atracação agora implementado.
O novo mecanismo de importação surge precisamente como resposta aos constrangimentos logísticos que durante anos afectaram o desembarque de cereais nos portos nacionais. A nova abordagem estabelece critérios de coordenação destinados a reduzir tempos de espera, aumentar a previsibilidade operacional e melhorar a gestão das infra-estruturas portuárias.
De acordo com os dados divulgados pelo Instituto de Cereais de Moçambique, os custos de sobre-estadia — conhecidos internacionalmente como demurrage — ultrapassavam frequentemente os 750 mil dólares quando os navios permaneciam mais de 30 dias fundeados à espera de espaço para descarga. A prioridade de atracação concedida aos operadores regularizados permitiu agora reduzir significativamente esses riscos financeiros.
Paralelamente às operações de descarga, o ICM realizou um encontro de coordenação com a Cornelder de Moçambique e a Beira Grain Terminal (BGT), destinado a harmonizar procedimentos relacionados com o novo modelo de gestão das importações de cereais. Entre os pontos centrais esteve precisamente a aplicação do regime de prioridade de atracação para navios que transportam produtos destinados ao consumo interno.
O Director-Geral do Instituto de Cereais de Moçambique, Luís José Jobe Fazenda, defendeu no final da visita a necessidade de reforçar a articulação entre o Estado, os importadores, os operadores logísticos e as autoridades portuárias, sublinhando que a segurança alimentar depende cada vez mais da eficiência das cadeias de abastecimento.
Num cenário internacional marcado por volatilidade nos preços dos alimentos, pressões climáticas e perturbações logísticas globais, o desempenho dos corredores de transporte tornou-se um elemento decisivo para garantir estabilidade no mercado interno. A experiência agora registada no Porto da Beira demonstra que ganhos operacionais e melhor coordenação institucional podem traduzir-se directamente em redução de custos, maior previsibilidade e reforço da segurança alimentar nacional.
