Neste Outubro, a luta de Edite Dimene

Escrito por: Precidónio Silvério


Anualmente o mundo “marcha”, em cada mês de Outubro, numa campanha de consciencialização dirigida às mulheres e à população em geral, sobre a importância da prevenção e do diagnóstico precoce do cancro da mama. 
A iniciativa teve início nos Estados Unidos da América, em 1990, num evento designado “Corrida pela Cura”, e tem sido replicada por vários países, entre os quais Moçambique, no movimento agora global conhecido por “Outubro Rosa”. Com ou sem histórico de cancro de mama, mulheres e homens, particulares e instituições, unem-se numa única voz para alertarem sobre os riscos desta doença, verdadeiramente avassaladora, e lançarem apelos para a sua prevenção.

Edite Dimene, de 43 anos de idade, residente na Matola, a segunda maior cidade de Moçambique, aceitou abriu-se para contar a sua história, um tanto amarga, mas, sobretudo, marcada por  superação. Ela não se importa de falar do passado que teve no que respeita à doença, pois sabe que o seu testemunho ajudará a desnudar dúvidas sobre o cancro que preenchem as mentes de muita gente.

Para Edite, tudo começou em finais de 2016, quando, aos poucos, notou algumas mudanças no seu organismo. Tocando no peito, foi descobrindo que algo não estava bem: a sua mama esquerda tinha um nódulo, uma descoberta que não a deixou, de forma alguma, sossegada. Foi o suficiente para que o horizonte da sua vida tomasse um outro rumo, nada agradável.

Em Moçambique, em 2016, não era muito o que se falava publicamente do cancro da mama, e as pessoas relegavam-no frequentemente aos labirintos dos tabus. Mas Edite Dimene não se deixou levar, não caiu nessa. Decidiu procurar resposta num hospital, uma deslocação a uma unidade sanitária que se multiplicaria em imensas, do que pouca ideia fazia. Entre consultas e diagnósticos, ainda em finais de 2016, os médicos confirmaram-lhe o que mais temia: o cancro da mama. “Não foi nada fácil saber que tinha adquirido o cancro. Foi um choque eu saber que parte de mim estava em risco de sair do meu corpo”, afirmou. Em muito pouco tempo, Edite teve o infortúnio de provar um lado obscuro da vida, mas depressa fez da luta contra aquele inimigo patológico a sua grande causa.

Com ou sem histórico de cancro de mama, mulheres e homens, particulares e instituições, unem-se numa única voz para alertarem sobre os riscos desta doença, e lançarem apelos para a sua prevenção 

Em 2017, Edite Dimene iniciou o longo processo de tratamento no Hospital Central de Maputo. Passou por várias consultas médicas, muitas delas começadas no departamento de cirurgia, onde lhe foi removido o nódulo e foram feitos exames que levaram a concluir que sofria, deveras, de cancro. Passou então por oito sessões de quimioterapia, das quais as primeiras quatro foram as mais decisivas, porque consistiam na eliminação das células afectadas e junção das que não a colocavam em risco. Já no início de 2018, Edite soube dos médicos que seria submetida a uma cirurgia, para a remoção da mama esquerda, onde o nódulo se encontrava. “Foi um turbilhão de sentimentos ver uma parte do meu corpo a perder-se. Isso mexeu com a minha vaidade”, contou-nos Edite. Chocados e pesarosos ficaram também os seus familiares por verem-na mergulhada num sofrimento caracterizado por pavor e incertezas. 


Um testemunho para várias mulheres 

Feita a remoção da mama, Edite não cessou de lutar. Tinha que ser submetida a consultas médicas uma vez ao mês, para que os médicos analisassem e monitorassem a situação. Actualmente vai a essas consultas apenas trimestralmente.

Engana-se quem pensa que a redução da frequência às consultas é motivo para cantar a vitória. Edite não esconde as dúvidas e o medo do que o médico poderá dizer num próximo encontro. “É um suspense que não vai passar tão já. Continua a ser preocupante. Há sempre aquela dúvida de o cancro ter ou não migrado para outra região da mama”, desabafou.

Há casos em que as mulheres que sofrem de cancro têm a sorte de não lhes ser retirada a mama, mas essa não foi a de Edite Dimene, nem foi para muitas outras mulheres. A nossa interlocutora sentiu e continua sentido as mazelas das cicatrizes que a doença maligna nela causou. Por isso, afirma vezes sem conta que não gostaria que nenhuma outra mulher passasse por aquilo que ela passou. “Falo a todas mulheres da necessidade de conhecerem o seu corpo. Que toquem mais no seu peito, porque isso, de facto, as pode salvar”.