Inteligência Artificial dispara procura por centros de dados, com investimentos históricos, consumo energético crescente e uma nova geopolítica digital a emergir.
O mundo vive um novo boom de infra-estruturas digitais. Os centros de dados – edifícios concebidos para alojar servidores e processar volumes gigantescos de informação – tornaram-se activos estratégicos para governos, fundos de investimento e gigantes tecnológicos. Estão a transformar-se rapidamente na espinha dorsal da nova economia global, impulsionada pela massificação da Inteligência Artificial (IA).
De acordo com a consultora McKinsey, o investimento mundial neste sector deverá atingir 5,8 biliões de euros até 2030, sendo que três quartos deste montante serão directamente impulsionados por projectos ligados à IA. O objectivo: expandir de forma exponencial a capacidade de computação, que, segundo previsões, terá de crescer 350% nos próximos cinco anos.
Corrida das Big Tech
Empresas como a Meta, Microsoft, Amazon e Alphabet protagonizam esta corrida sem precedentes. Mark Zuckerberg anunciou, para 2025, um investimento de 60 mil milhões de euros em novas infra-estruturas, enquanto a Microsoft irá quase duplicar os valores aplicados no ano anterior, ultrapassando os 70 mil milhões de euros. Sundar Pichai, da Alphabet, também revelou um reforço de 65 mil milhões, destinados a alimentar serviços como o Google Search e o modelo de IA Gemini.
A Amazon não fica atrás: só este ano, avançou com três investimentos consecutivos – 17,5 mil milhões na Pensilvânia, 8 mil milhões na Carolina do Norte e 10 mil milhões na Geórgia. Tudo com o intuito de expandir a sua infra-estrutura de IA e cloud.
A economia da computação
A procura por centros de dados está a redefinir o mapa dos investimentos globais. Este movimento não passou despercebido ao sector financeiro. Fundos como a Blackstone, KKR, Blue Owl e BlackRock estão a canalizar somas astronómicas para este sector. Só a Blackstone já investiu 90 mil milhões de euros em menos de cinco anos, superando todos os seus investimentos em imóveis ou logística ao longo de quatro décadas.
A empresa Social Capital, liderada por Chamath Palihapitiya, ex-executivo do Facebook, comprou um terreno no Arizona para construir centros de dados num projecto estimado em 22 mil milhões de euros. A dimensão dos montantes envolvidos está a alimentar receios: estará o mundo a construir mais data centers do que os que realmente precisa? Alguns analistas já falam numa “potencial bolha” digital.
Pressão energética e ambiental
Este crescimento vem com custos. Os centros de dados são devoradores de energia. Cada unidade alberga milhares de servidores que, além de operarem sem interrupção, requerem sofisticados sistemas de refrigeração. Segundo a Agência Internacional de Energia, estes centros poderão, até 2030, consumir tanta eletricidade quanto o Japão inteiro consome hoje.
Nos Estados Unidos, a Energy Information Administration estima que o consumo de electricidade atinja um recorde de 4,3 biliões de kWh em 2026, muito impulsionado pela expansão destes centros. E a pressão será global: na Europa, a organização Beyond Fossil Fuels alerta para um aumento até 160% da procura energética associada aos centros de dados, nos próximos cinco anos.
Além da energia, a água usada nos sistemas de arrefecimento é outro ponto crítico. Algumas comunidades locais, nos EUA, já questionam os impactos na qualidade de vida e nos recursos hídricos, obrigando as empresas a adoptar políticas mais sustentáveis e transparentes.
Um jogo geopolítico
Os centros de dados tornaram-se também peças de estratégia geopolítica. Nos Estados Unidos, a administração de Joe Biden acelerou a construção de mega data centers através de ordens executivas que autorizam o uso de terras federais, exigindo contrapartidas como a compra de semicondutores produzidos localmente.
No Senado norte-americano, a corrida com a China pela supremacia da IA é debatida com crescente inquietação. Em resposta, foram proibidas vendas de chips de IA da Huawei, enquanto o ex-presidente Donald Trump firmava acordos estratégicos no Médio Oriente, resultando num novo centro de dados da OpenAI nos Emirados Árabes Unidos.
A China, impedida de aceder a componentes essenciais como os chips da Nvidia, aposta agora no desenvolvimento de infra-estruturas próprias e na exportação de tecnologia subsidiada para países em desenvolvimento – uma estratégia semelhante à que levou a Huawei a dominar o sector das telecomunicações. Brad Smith, da Microsoft, alerta para o risco de um “ecossistema digital paralelo” liderado por Pequim.
A resposta americana passa por garantir que os sistemas de IA sejam alojados em infra-estruturas que cumpram os mais exigentes padrões de segurança, criando um novo terreno de disputa global: o controlo da base física da inteligência artificial.
