A tendência crescente para alcançar um tom de pele mais claro está conduzindo indivíduos de diferentes idades e géneros, em Moçambique, a optar pelo uso de cosméticos e substâncias que podem ser prejudiciais para a saúde.

Abussete Nota, um jovem pedreiro de 24 anos, é um dos muitos que se enveredou por este caminho, na esperança de realçar a sua aparência física. A sua aspiração é harmonizar o seu tom de pele com o dos seus colegas de tez mais clara, uma empreitada que já leva três anos. Em entrevista à Agência Lusa, alguns jovens moçambicanos ecoaram sentimentos semelhantes, sublinhando uma crescente pressão social para alterar a sua pigmentação. Embora as responsabilidades para com o seu filho recém-nascido tenham levado a pausas ocasionais neste processo, recentemente Nota retomou o hábito de utilizar produtos clareadores.
Estes artigos, embora proibidos em diversas nações, encontram uma demanda significativa, sobretudo entre os consumidores de classes económicas média e baixa em Moçambique. O mercado local está repleto de variedades de produtos destinados a reduzir a produção de melanina, o pigmento responsável pela cor da pele. A gama de produtos disponíveis inclui sabonetes, loções, esfoliantes, cápsulas, e até injecções, todos vendidos a preços bastante convidativos.

Um exemplo da sua acessibilidade financeira pode ser visto nos preços dos clareadores, que variam consideravelmente. Um recipiente de 100 mililitros pode custar aproximadamente entre 100 e 120 meticais, equivalente a cerca de 1,5 euros, enquanto os produtos de efeitos mais rápidos podem atingir valores na ordem dos 1.000 meticais.

Nota adquire os seus produtos em barracas do mercado informal 38 Milímetros, situado em Chimoio, a capital da província de Manica, situada no centro do país. No entanto, esta prática não está isenta de repercussões negativas. A utilização destes produtos pode resultar em efeitos adversos notáveis, como pele ressequida e irritações cutâneas, o que, consequentemente, pode afectar a auto-estima do indivíduo.

Gina Mosse, que possui um estabelecimento de ferragens no mesmo mercado, relata que já teve experiências prévias com clareadores, mas alerta para o facto de alguns destes produtos poderem danificar a pele. Cândida Paz, uma vendedora e amiga de Gina, critica também estes produtos pela forma desigual como alteram o tom da pele.

Ancha Siaca, médica no Hospital Provincial de Chimoio, reitera que são escassos os casos em que não se observam consequências prejudiciais decorrentes do uso não regulamentado destes produtos, que frequentemente contêm substâncias potencialmente tóxicas e carcinogénicas como mercúrio, esteróides ou hidroquinona.

A problemática do uso destes clareadores não é única a Moçambique. Na verdade, países vizinhos como a África do Sul já instituíram legislações rigorosas no que concerne à venda de produtos que contêm hidroquinona, liderando assim um movimento que foi posteriormente seguido por outras nações africanas.

Estima-se que o mercado global de produtos de clareamento da pele tenha atingido um valor de cerca de 4,8 mil milhões de dólares em 2017, número que tem vindo a aumentar, impulsionado pela procura significativa em África e na Ásia.

Artur Semente, um comerciante atacadista, confirma a tendência ascendente deste mercado e mostra-se disponível para satisfazer a crescente demanda, oferecendo uma vasta gama destes produtos.