A língua portuguesa está em mutação. É uma transformação lenta, quase imperceptível, mas que reflecte a evolução natural de qualquer idioma vivo. Novas palavras entram nos dicionários. E agora, além dos usuais brasileirismos, chegam também vocábulos de Angola, Moçambique e outros países africanos que partilham o português como língua oficial.

Segundo Helena Figueira, linguista da Priberam — o conhecido dicionário online —, o critério para que uma palavra seja aceite é claro: "Tem de haver evidência, seja de frequência, de actualidade ou até por sugestão dos próprios utilizadores". Tudo passa por análise. Não é um processo arbitrário, mas metódico, quase científico.

Nos últimos meses, foram adicionadas palavras como dipanda (independência), meninência (referente a meninos e meninas), manguana (amanhã) e baiar (fazer um feitiço). Todas elas provêm dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, conhecidos como PALOP.

A explicação para o menor número de palavras africanas face às brasileiras é simples: "Os portugueses têm menos acesso ao que é produzido na língua desses países", explica Helena Figueira. A exposição cultural ao Brasil é muito superior, com influência diária através de novelas, músicas, literatura e redes sociais.

A linguista admite não dispor de dados que indiquem quais as palavras brasileiras mais usadas em Portugal, mas garante que são poucas. O que realmente predomina no uso diário são as preposições simples — "de", "em" — que estruturam o discurso. "Às vezes o nosso discurso é pobre porque usamos sempre as palavras mais frequentes", afirma.

Já quanto ao Acordo Ortográfico, Helena Figueira recorda que este se limita à ortografia. Não interfere no léxico, nem na sintaxe. E os chamados "brasileirismos"? Esses são uma questão à parte. "São interferências que vêm do contacto com outras variantes da língua, mas não têm relação com o Acordo", sublinha. Por vezes, surgem equívocos, como escrever "fato" em vez de "facto", um erro que revela mais confusão do que influência.

Esta segunda-feira, 5 de Maio, celebra-se o Dia Mundial da Língua Portuguesa, instituído pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) em 2009 e reconhecido pela UNESCO em 2019. A CPLP reúne Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste — nove países, um idioma, várias vozes.

A entrada de palavras africanas no dicionário é mais do que uma curiosidade linguística. É um sinal. Um indício de que a língua portuguesa continua a crescer. A adaptar-se. A acolher.