A mais recente descoberta do Rover Perseverance poderá ser um marco na longa busca pela resposta a uma das questões mais antigas da humanidade: houve alguma vez vida em Marte? A NASA revelou esta quarta-feira que amostras recolhidas de um antigo canal de rio seco, situado na cratera Jezero, contêm potenciais sinais de vida microscópica antiga.
A responsável pela missão científica, Nicky Fox, afirmou que, embora esta análise “certamente não seja a resposta final”, representa “o mais próximo que alguma vez estivemos de descobrir vida antiga em Marte”.
O Perseverance, que desde 2021 percorre o solo marciano, não tem capacidade para detectar vida de forma directa, mas está equipado com uma broca e tubos de titânio para recolher amostras nos locais mais promissores — zonas onde, há milhares de milhões de anos, poderá ter existido água e, por conseguinte, condições habitáveis. No entanto, as amostras continuam em Marte, à espera de um plano de transporte viável para a Terra, que enfrenta atrasos, cortes orçamentais e desafios técnicos. O regresso estava previsto para o início da década de 2030, mas agora empurra-se para os anos 2040, com um custo estimado de 11 mil milhões de dólares.
Descoberta emocionante, mas inconclusiva
As conclusões foram publicadas na prestigiada revista Nature. A amostra em causa, recolhida no Verão passado na formação sedimentar Bright Angel, localizada no canal Neretva Vallis, mostrou-se particularmente promissora. Trata-se de mudstones avermelhadas e ricas em argila — uma combinação que, na Terra, favorece a preservação de sinais biológicos.
Segundo Joel Hurowitz, da Universidade de Stony Brook, investigador principal do estudo, esta é a amostra “mais convincente” até agora. Mas, apesar do entusiasmo, prevalece a cautela: “Não podemos ir tão longe ao ponto de dizer ‘A-ha, isto é prova positiva de vida’. Uma das explicações possíveis é vida microbiana, mas há outras formas de produzir estas características.”
Entre os compostos identificados estão carbono orgânico, fosfato e sulfureto de ferro — substâncias que, na Terra, são muitas vezes deixadas para trás por microrganismos que consomem matéria orgânica. Contudo, os cientistas não descartam a hipótese de estes elementos terem origem em processos não biológicos.
Janice Bishop, do Instituto SETI, e Mario Parente, da Universidade de Massachusetts Amherst, reforçaram esse ponto num editorial complementar: “Se microrganismos existiram em Marte, poderiam ter reduzido minerais de sulfato para formar sulfuretos, tal como acontece em lagos na Terra.”
Entre a Terra e Marte: um caminho incerto
Das 30 amostras já recolhidas, esta foi a 25.ª. Dez delas foram depositadas na superfície marciana como reserva de segurança, caso as que estão a bordo do Rover sejam comprometidas. A NASA continua a estudar várias opções: desde enviar robôs com tecnologia de análise avançada até missões tripuladas que poderiam recolher as amostras.
“Todas as opções estão em cima da mesa”, disse Sean Duffy, administrador interino da NASA, reconhecendo que orçamentos e calendário determinarão o rumo.
Enquanto não se concretiza o regresso das amostras à Terra, os cientistas continuarão a recorrer a análises laboratoriais aqui feitas e à comparação com ambientes geológicos terrestres para tentar decifrar os segredos do passado marciano. Mesmo que a resposta não seja vida, será certamente uma lição valiosa sobre como a natureza pode imitar os seus próprios traços.
