Cada vez mais mulheres estão a encontrar nas moto-táxis uma alternativa para garantir o sustento das suas famílias na cidade da Beira, desafiando preconceitos num sector tradicionalmente dominado por homens. Segundo uma notícia da Lusa, o agravamento do custo de vida e a escassez de oportunidades de emprego têm levado um número crescente de mulheres a apostar nesta actividade como forma de assegurar rendimentos.

Entre elas está Augusta Munguela, de 48 anos, viúva e mãe de cinco filhos, que há sete anos trabalha como moto-taxista, depois de uma sucessão de acontecimentos que mudaram por completo a sua vida.

Em 2008 perdeu o marido e, mais tarde, viu o ciclone Idai destruir as 12 bancas que possuía no mercado do Goto, deixando-a sem a principal fonte de rendimento.

"Tudo ficou associado para mim. Perdi o marido, depois perdi o negócio. Fiquei sem chão", recordou à Lusa.

Perante a falta de alternativas, decidiu investir na condução de uma motorizada para transportar passageiros. Numa fase inicial, aceitava apenas clientes do sexo feminino por considerar que seria uma opção mais segura, mas acabou por abandonar essa decisão ao perceber que limitava os seus ganhos.

"Pensava que assim estaria mais segura, que ia evitar confusão. Mas comecei a ver que estava a perder dinheiro. Às vezes apareciam dois homens precisando de boleia e eu recusava. Acabei percebendo que tinha de quebrar esse preconceito eu mesma", explicou.

A pandemia da covid-19 reforçou ainda mais a importância da actividade, numa altura em que as despesas familiares aumentaram e os filhos ingressaram no ensino superior.

Actualmente, Augusta garante que é através da moto-táxi que consegue suportar os estudos dos filhos na Universidade Licungo e na Universidade Zambeze, incluindo uma filha que frequenta o curso de Medicina.

"O que parecia impossível para uma mãe sem estudo, a mota deu-me", afirmou.

Apesar da estabilidade financeira que alcançou, admite que continua a enfrentar riscos na estrada e comentários discriminatórios.

"Já ouvi: 'Mulher não sabe guiar'. Mas quando chego primeiro, ninguém fala nada", disse.

Outra das mulheres ouvidas pela Lusa é Balbina Sílvio, de 47 anos, professora, que utiliza a motorizada há mais de uma década para reforçar o rendimento familiar e apoiar os seus negócios.

"Não é só com o salário que se vive. O custo de vida está alto e eu tenho cinco filhos para criar, além de outros membros da família. Acabei pensando em fazer outras coisas para conseguir ajudar em casa", explicou.

Segundo Balbina, a utilização da motorizada permitiu-lhe transportar mercadorias, desenvolver o seu negócio e expandir gradualmente as actividades comerciais.

"Estou prosperando aos poucos. Acredito que não comecei assim, mas já estou chegando num patamar elevado", afirmou.

A presidente da Assembleia Municipal da Beira, Jacinta dos Remédios, considera que a crescente presença feminina no sector demonstra a procura por soluções perante a falta de emprego e representa um avanço na promoção da igualdade de oportunidades.

Por sua vez, o presidente da Associação dos Moto-taxistas da Beira, Jacob Pereira, entende que a entrada de mais mulheres fortalece a actividade económica e incentiva outras a seguirem o mesmo caminho. Acrescentou que a associação trabalha com o Instituto Nacional dos Transportes Rodoviários (INATRO) e uma escola de condução na formação dos profissionais, defendendo que a certificação é essencial para melhorar a segurança rodoviária.

Segundo a Lusa, as mulheres que exercem esta actividade relatam jornadas superiores a 12 horas por dia e enfrentam riscos como acidentes de viação, assaltos e situações de assédio, sobretudo durante o período nocturno. Ainda assim, para muitas, as moto-táxis representam hoje uma oportunidade para alcançar independência financeira e assegurar melhores condições de vida para as suas famílias.