MULHERES

Mulheres é um drama baseado em factos verídicos que decorre em ambiente periférico angolano. José (Manuel Teixeira) é um homem irresponsável que troca a sua família por uma vida paralela, de vícios, em redor de várias mulheres. Conhecido como “Ti Paga Bué”, quer aparentar à sociedade ser abastado, enquanto a sua família passa por muitas e grandes dificuldades, mergulhada em profundo sofrimento e miséria. Minga (Ndenga dos Santos), esposa de José, luta pela sobrevivência, procurando manter a família unida. A narrativa representa uma chocante realidade de uma sociedade machista com a qual, infelizmente, muitas mulheres africanas se identificam.

A narrativa representa uma chocante realidade de uma sociedade machista com a qual, infelizmente, muitas mulheres africanas  se identificam

Como produtor executivo, o que o atraiu para contar a história do filme Mulheres?
Como produtor executivo, tenho na gaveta alguns filmes em que apostar, mas o Mulheres foi um amor à primeira vista. Quando o Allen Mamona, o realizador e guionista do filme, o trouxe até mim, não pensei duas vezes em lutar para edificarmos o projecto e permitir que mais pessoas abordassem o tema que tratamos, que é sistémico no nosso país e destrói milhares de lares. É uma chamada de atenção.  

Sabemos que tem uma admiração muito grande pela sua mãe. Isso influenciou-o de alguma forma na realização deste filme?
Fui criado por mulheres, mãe, avó e irmã, com a supervisão das minhas tias, e tenho 3 filhas, então esse filme é um tributo e uma nova forma de elevar a existência e importância das mulheres, dando-lhes a dignidade que o machismo lhes retira.  É uma redenção.  

Bigamia e pedofilia são sempre temas difíceis de abordar. Como se preparou para relatar essa realidade?
Eu e o realizador Allen Mamona somos sócios e sentamo-nos várias vezes para pensar no tipo de cinema que queremos fazer, e um ponto comum é contar a verdade sobre nós, sobre como vemos a nossa África, e espelhá-la nos nossos trabalhos, para que todos se possam ver neles. Isso pode corrigir comportamentos, porque nem sempre nos dizem ou nos vemos como somos. O cinema faz reflectir sobre os nossos comportamentos, então só metemos as verdades que vivemos. Isso não se torna mais fácil ou difícil, torna-se real e cru.

Quais foram os principais desafios que encontrou na produção do filme?
Produzir em Angola é sempre desafiante, por causa de todas as nossas insuficiências. Quando não somos nós, a produção, a errar com os artistas, são os artistas a falhar connosco, ou as insuficiências estruturantes do mercado. Então, é uma luta começar e terminar um projecto.  Requer disciplina, em várias dimensões, e muita paciência, pois há trabalhos que nos levam 8 meses ou mais, quando processos normais levariam um mês.  É um acto heróico fazer filmes em Angola.  

Que mensagem procura passar às mulheres que se encontram presas em relacionamentos abusivos?
Mulheres, vocês são mais fortes do que o que o machismo vos faz parecer não ser. O respeito, apoio e cumplicidade dos homens deviam ser uma regra. A mulher é Deus, é mãe, filha, esposa, irmã, tem capacidades diferentes e que se conjugam com as dos homens, logo, quero deixar bem claro que vou ajudar a mudar o curso do rio que impuseram às mulheres com a falta de oportunidades, para que histórias como a do filme Mulheres não sejam frequentes.  

“Não pensei duas vezes  em lutar para edificarmos  o projecto e permitir que mais pessoas abordassem o tema que tratamos, que é sistémico no nosso país e destrói milhares de lares”


Amor e respeito nem sempre andam de mãos dadas em certas sociedades.  Há esperança em mudar esta realidade?
Sou um lutador pelas causas a favor das mulheres, com atitudes práticas, mais do que apenas com esperança. Estou a ajudar a cultivar o novo homem, para que este veja a mulher como ela sempre mereceu. No topo da tabela, ao lado e nunca atrás; muitas vezes à frente, porque todos nós sabemos que o pilar da casa é a mulher.  

De que forma acha que um filme como este pode tocar e influenciar as pessoas?
Quando as pessoas se revêm nos filmes, se auto-analisam, umas ganham vergonha, e outras, consciência do que fazem, e isto é reeducação. É por isso que faço filmes sobre nós, para nos auto-analisarmos e nos curarmos.  

Ainda existem muitos ‘Josés’ nesta  sociedade?
Sim, existem. É estrutural. Precisamos de melhorar, e só mantendo o assunto real em debate público, em família e entre nós mesmos é que conseguimos mudar a fórmula.  

Acha que há um novo cinema angolano? Sente-se parte dessa nova geração?
Sim, há uma nova forma de encarar o cinema angolano, novas formas de alcançar o público e uma nova geração, de que com orgulho faço parte. Tenho feito história, sem falsa modéstia. Criámos uma plataforma de streaming, a Tellas, que tem o maior alcance, uma base de dados e a melhor distribuição de filmes de Angola. Isto nunca foi feito antes. Nós fizemos, e o seu valor vai repercutir-se directamente na vida das populações e das gerações vindouras.

Produções para breve? Quais os seus planos para o futuro?
Vamos estrear mais 3 filmes num espaço de 12 meses. Alguns já são públicos, o “Mwana Nkento”, que, inclusive, já foi seleccionado para festivais internacionais, e o “Nossa Senhora da Loja do Chinês”, realizado por Ery Claver e com produção da Geração 80, mas irão surgir outras surpresas até ao final do ano. Parar não é expressão que eu costume utilizar. Acredito que tenho um encontro marcado com a história no cinema de Angola, e pretendo levá-la para o mundo.