Há filmes que contam uma história e outros que criam um espaço onde o espectador é convidado a observar, sentir e tirar as suas próprias conclusões. “O Profeta”, primeira longa-metragem do realizador moçambicano Ique Langa, pertence ao segundo grupo.
Rodado a preto e branco em Manjacaze, na província de Gaza, o filme acompanha Hélder, interpretado por Admiro de Laura Munguambe, um pastor evangélico cuja pequena congregação atravessa dificuldades. Sentindo que os seus sermões já não mobilizam os fiéis, começa a questionar a própria fé e, em segredo, procura ajuda nas práticas espirituais tradicionais.
A mudança parece resultar. Surgem poderes de cura, chegam novos seguidores e cresce o reconhecimento que tanto desejava. Mas aquilo que inicialmente parece uma solução começa a exigir um preço cada vez mais elevado.
Ique Langa poderia ter transformado esta premissa num simples confronto entre cristianismo e espiritualidade tradicional. Escolhe um caminho mais interessante. O verdadeiro conflito acontece dentro de Hélder, dividido entre fé, ambição, desejo de servir e necessidade de reconhecimento.
O filme acaba, assim, por falar menos de religião do que sobre poder e sobre aquilo que estamos dispostos a fazer para sermos ouvidos.
Admiro de Laura Munguambe sustenta grande parte do filme com uma interpretação contida e convincente, que lhe valeu o Prémio de Melhor Actor no Festival de Cinema Africano de Tarifa-Tânger, Espanha. Ao seu lado estão Nora Matavel, Alexandre Masnado Coana, Venâncio Jaime Langa, Armando José Macave e Yara Bonga, entre outros.
Parte do elenco é composta por habitantes locais sem experiência profissional como actores, reforçando a ligação do filme à comunidade onde foi rodado.
Antes de estar concluído, o filme foi seleccionado para o Final Cut in Venice, da Bienal de Veneza. Em Janeiro de 2026, teve a estreia mundial na Tiger Competition do International Film Festival Rotterdam, tornando-se a primeira longa-metragem moçambicana a integrar aquela competição.
Seguiram-se o New Directors/New Films, organizado pelo Museum of Modern Art (MoMA) e Film at Lincoln Center, em Nova Iorque, o Festival de Cinema Africano de Tarifa-Tânger e o Olhar de Cinema, no Brasil. Em Setembro, segue para o Afrika Film Festival Köln, na Alemanha.
Depois deste percurso internacional, a película chega finalmente a Moçambique.
A estreia nacional aconteceu a 30 de Agosto de 2026, em Maputo, integrada no KUGOMA, Fórum de Cinema Moçambique. À data desta edição, encontra-se em exibição no Nu Metro Maputo. O International Film Festival Rotterdam apresenta também o filme na sua plataforma de streaming, sujeito às condições de acesso e disponibilidade territorial.
