Moringa

Um bem para a saúde e para energia sustentável

Escrito por  Precidónio Silvério

Moçambique possui uma cobertura florestal na ordem dos 61,8 milhões de hectares, correspondendo a 78 por cento da superfície do país, dele fazendo um território rico em recursos orgânicos para gerar energia eléctrica ambientalmente sustentável e permitir que mais pessoas tenham acesso a este bem. De entre as riquezas da flora que o país possui, está a moringa, uma planta frequentemente cultivada e utilizada para se produzirem derivados para tratar certas doenças. Dela se obtêm também produtos para higiene pessoal, cuidados de beleza e não só.  As folhas, por exemplo, podem ser transformadas em óleo para uso culinário ou para aliviar algumas irritações da pele e, quando trituradas, podem ser consumidas como suplemento, juntando-as ao chá ou a outros alimentos.  Partes e produtos desta planta têm sido também indicados para quem sofre de enfermidades como diabetes, HIV/SIDA e anemia, entre outras, havendo, no entanto, algumas objecções científicas e recomendações para cautelas no seu consumo.

Carlota Sitoe, quinquagenária, é professora reformada e residente nos arredores da cidade de Maputo. Na sua idade, é comum passar-se por algumas complicações de saúde. Ela conta-nos as boas experiências que teve ao ter usado alguns derivados da moringa: “Consumo a folha da moringa, mesmo sem passar por processamento. Às vezes, quando sinto algum incómodo no meu corpo, como dores nas articulações e fraqueza, eu fervo-as, bebo a água e, em poucos dias, fico bem. Aliás, já tive outros bons resultados. As folhas também aliviam irritações na vista. Muitas vezes recomendo a parentes mais próximos e conhecidos que aproveitem os benefícios que a planta oferece”.

Manuel Peniel, também morador num dos bairros da capital moçambicana, faz juras sobre a “magia” que a planta oferece. Ele não é só consumidor de moringa, dedica-se, há mais de cinco anos, como empreendedor, ao processamento e venda de seus derivados. Conforme nos contou, tem mesmo criada uma marca para produzir e fornecer moringa aos seus clientes, também eles apaixonados pela planta. Manuel já participou de várias feiras, nas quais fez a promoção dos seus produtos e da sua marca: “Agrada-me sempre satisfazer os meus clientes, quando, mesmo de longe, solicitam determinados suplementos. Eu faço tudo isso em casa. Há derivados muito rápidos de processar, mas outros levam-me mais dias. No fim do trabalho, o resultado é positivo”.

De entre as riquezas da flora que o país possui, está a moringa, uma planta com usos diversos, tais como o tratamento de doenças e a confecção de alimentos, produtos de higiene e de beleza, entre outros.

Apostar em tecnologia de bioenergia
A moringa pode, sim, oferecer derivados e suplementos, mas tem muito mais por oferecer ao ser humano. Segundo especialistas, ela constitui um recurso orgânico viável para a geração de energias ambientalmente sustentáveis. Alguns estudos indicam que em um hectare de terra podem ser plantadas entre 700 e 1100 árvores de moringa. O seu cultivo é capaz de gerar 1478 litros de óleo por hectare, podendo estes ser convertidos em biodiesel.

Pesquisas indicam que a origem exacta desta espécie é um tanto obscura, devido ao seu cultivo generalizado desde tempos remotos. Cientificamente denominada Moringa Oleifera Lamarck, pertence à família Moringaceae, parecendo provir de Agra e Oudh, na região noroeste da Índia, no sul do Himalaia. A planta, avançam os estudos, foi utilizada pelos antigos romanos, gregos e egípcios (uso do óleo extraído para alimentação e cosméticos) e agora é amplamente cultivada em todas as regiões tropicais e subtropicais do mundo. Tem em Moçambique um excelente habitat, podendo ser encontrada em residências, bem como cultivada em grandes extensões de terra, para fins industriais e não só. Este e outros recursos podem, segundo a mestranda em ciências e tecnologias de energias renováveis Hamida Mazive, gerar energias sustentáveis e capazes de abranger a maioria da população. No entanto, a seu ver, para se chegar a esse estágio é preciso que o país invista em tecnologias capazes de transformar a riqueza orgânica que possui em energia. Para Hamida, em Moçambique as biomassas são muito usadas em forma de calor, quando podem ser transformadas em electricidade, e o uso dos recursos orgânicos de que o país dispõe para gerar electricidade e biogás pode reduzir as chances de efeitos negativos das mudanças climáticas: “Estamos numa altura em que uma das grandes preocupações é a de reduzir os combustíveis fósseis, que, como sabemos, têm desvantagens enormes sobre o ambiente. A transformação dos recursos orgânicos não vai mudar completamente esse quadro, mas eles podem muito bem reduzir chances de poluição, pois são mais limpos e sustentáveis”. A nossa entrevistada sublinha, no entanto, que só com a adopção de novas tecnologias viradas para a transformação dos meios orgânicos chegaremos ao que pretendemos. Faz menção à lenha e ao carvão vegetal como exemplo do uso de biomassas para gerar energia sob a forma de calor, mas, insiste, “tanto o carvão vegetal como a lenha e outros recursos orgânicos, com tecnologias adequadas, podem ser transformados em electricidade limpa e renovável”.  

Das experiências dos outros para o nosso país
Segundo a nossa interlocutora, há países que possuem tecnologias que Moçambique pode usar para as bioenergias. Tal é o caso do Brasil, que, já há alguns anos, tem na moringa, por exemplo, um recurso para produzir energia. Hamida Mazive acredita que é possível trazer essas tecnologias para cá. “Claro, são investimentos necessários, mas apostar neles traz bons resultados” - acrescenta: “Olhando para a quantidade de recursos orgânicos que o nosso país possui, seria, por exemplo, necessária uma central com a qual se pudesse reaproveitar toda matéria orgânica. Tal como a moringa, a casca do amendoim, da banana e outras (muitas vezes consideradas lixo) podem ser reutilizadas para bioenergia”.

Hamida, também engenheira rural, não descarta a necessidade de o país reforçar as políticas de geração de bioenergia, pois elas podem promover investimentos e consciencializar para o reaproveitamento dos meios orgânicos para energias limpas e renováveis. Sobre esta matéria, Mazive afirma que, para além de permitir que mais pessoas tenham acesso a energia, a indústria de bioenergia pode contribuir para o auto-sustento de muitos.  

“Com meios tecnológicos, podemos todos crescer no uso desses recursos e melhorar no saneamento do meio, para além de que mais pessoas poderão ser empregadas. Por exemplo, se temos uma central de bioenergia, pode-se dar o caso de ela precisar de resíduos sólidos em quantidade para transformar. Usando-se plantas para esse fim, mais pessoas poderão cultivá-las para alimentar a indústria”. Mas, cautelosa, a nossa interlocutora deixa um importante aviso: “No uso dos recursos orgânicos, de plantas, por exemplo, para a transformação de energia, é preciso assegurar-se que se vai repor o que se retirou, pois não basta pensar em energias limpas se não houver reposição e sustentabilidade”.