A geografia colocou Moçambique diante do mundo. Agora, o país quer usar essa mesma posição privilegiada para se afirmar como uma das principais portas de entrada da economia digital em África.

A ambição foi reafirmada esta semana em Maputo, durante o II Fórum de Negócios Moçambique–União Europeia (Global Gateway), onde o Governo apresentou uma visão que procura ir muito além das tradicionais rotas comerciais. A aposta passa por converter os históricos corredores logísticos em corredores digitais, capazes de transportar dados, inovação, serviços tecnológicos e investimento.

O Ministro das Comunicações e Transformação Digital, Américo Muchanga, defendeu que Moçambique reúne condições singulares para ocupar um lugar de destaque na nova geografia digital do continente africano. A extensa linha costeira, os corredores de desenvolvimento que ligam países do interior aos mercados internacionais e a posição estratégica voltada para o Oceano Índico são, segundo o governante, activos que podem ser reaproveitados para integrar o país nos futuros fluxos digitais globais.

Se durante décadas Moçambique foi visto sobretudo como uma plataforma logística para a África Austral, o desafio actual consiste em expandir essa vocação para sectores de elevado valor acrescentado, como telecomunicações, centros de dados, inteligência artificial, computação em nuvem e serviços digitais transfronteiriços.

A estratégia enquadra-se numa tendência mundial em que a competitividade das economias depende cada vez mais da capacidade de atrair investimento tecnológico e de garantir infra-estruturas robustas de conectividade. Neste contexto, Américo Muchanga destacou ainda uma vantagem frequentemente esquecida no debate digital: a disponibilidade de recursos energéticos e hídricos.

Num momento em que os grandes centros de processamento de dados e as infra-estruturas de computação avançada exigem fornecimento energético estável e abundante, Moçambique acredita poder oferecer condições diferenciadoras para acolher projectos de dimensão regional.

A visão do Executivo recebeu um impulso concreto por parte da União Europeia. À margem do fórum, foram assinados três novos acordos de financiamento directo entre as duas partes, totalizando 118 milhões de euros.

Deste montante, 28 milhões de euros serão canalizados especificamente para o desenvolvimento de serviços digitais inclusivos e acessíveis, reforçando a aposta na transformação tecnológica do país. Os restantes financiamentos incluem 40 milhões de euros destinados ao reforço da resiliência e do acesso à energia, bem como 50 milhões de euros para o sector da educação, numa abordagem integrada destinada a criar as bases estruturais do crescimento económico.

O encontro serviu igualmente para assinalar o projecto Green Value for Growth in Mozambique, já em implementação desde 2025. A iniciativa, apoiada pela União Europeia e pelos Países Baixos, beneficia de um financiamento europeu de 50 milhões de euros para promover um modelo de desenvolvimento verde e resiliente às alterações climáticas.

Para o Governo, a digitalização constitui hoje um dos pilares centrais da transformação económica nacional. O objectivo não se limita à instalação de cabos, antenas ou centros tecnológicos. A meta passa por construir um ecossistema capaz de atrair investimento, estimular a inovação, desenvolver competências nacionais e integrar Moçambique nas cadeias globais de valor da economia digital.

A expansão do comércio electrónico, a inclusão financeira, a modernização dos serviços públicos, o desenvolvimento de talento tecnológico e a criação de novas oportunidades de emprego para os jovens são apontados como benefícios directos desta aposta.

Ao mesmo tempo, o discurso oficial revela uma ambição mais ampla: reforçar o papel de Moçambique como elo de ligação entre a África Austral, o Oceano Índico e os mercados internacionais. Ao defender a construção de pontes entre países, mercados, pessoas e oportunidades, o Executivo procura posicionar o país como uma verdadeira plataforma regional de integração económica.

O interesse suscitado pelo II Fórum de Negócios Moçambique–União Europeia parece reforçar essa possibilidade. Mais de 1.300 entidades participaram no encontro à procura de novas oportunidades de investimento, num sinal de que a agenda digital poderá assumir-se como uma das mais importantes fronteiras da cooperação económica entre Moçambique e os seus parceiros internacionais.

Resta agora transformar a visão em realidade. O verdadeiro teste será a capacidade de converter financiamento, estratégia e parcerias em projectos concretos que reforcem a conectividade, democratizem o acesso aos serviços digitais e consolidem Moçambique como um dos futuros centros tecnológicos da África Austral.