Há mais de meio século, portugueses e moçambicanos sentaram-se à mesma mesa, em Lusaka, para colocar um ponto final numa guerra. Esta segunda-feira, em Maputo, os dois países voltaram a encontrar-se em torno desse passado, desta vez com outro propósito: preservar os documentos que guardam a memória do conflito e permitir que a história seja reconstruída a partir dos dois lados.
A ministra dos Combatentes, Nyeleti Mondlane, pediu acesso aos arquivos históricos militares existentes em Portugal, defendendo que a documentação portuguesa é indispensável para aprofundar a investigação sobre o período da luta de libertação nacional de Moçambique.
"Parte significativa da documentação relativa às operações, aos efectivos, aos locais de detenção e às decisões políticas e militares daquele período encontra-se hoje em arquivos portugueses. Sem esse acesso, a história da luta de libertação nacional continua a ser escrita a partir de apenas uma das suas fontes", afirmou.
O pedido foi apresentado depois de Nyeleti Mondlane e do ministro português da Defesa, Nuno Melo, assinarem, em Maputo, um memorando de entendimento destinado à recuperação, digitalização, conservação, valorização e estudo do património arquivístico militar existente em Moçambique, com apoio técnico de Portugal.
Para a governante moçambicana, porém, o alcance pretendido por Maputo vai além da preservação dos documentos que permanecem no país.
"Importa precisar o alcance que o Ministério dos Combatentes atribui a este instrumento. O património militar português existente em Moçambique é um acervo que o Estado moçambicano guarda com responsabilidade e que passa agora a beneficiar de apoio técnico português na sua recuperação, tratamento e digitalização", explicou.
Nyeleti Mondlane, filha de Eduardo Mondlane, primeiro presidente da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), deixou claro que a ambição moçambicana é "mais ampla": garantir o "acesso dos investigadores moçambicanos aos arquivos históricos militares existentes em Portugal", permitindo avançar para "uma investigação historiográfica comum sobre o período da luta de libertação nacional".
Esse trabalho, sustentou, poderá ajudar "a completar registos, confirmar identidades de combatentes, localizar sepulturas e restituir às famílias uma memória que lhes pertence".
Do lado português, Nuno Melo enquadrou a abertura dos arquivos numa perspectiva de rigor histórico e reconciliação entre os dois países.
Durante a intervenção realizada no âmbito da sua visita a Moçambique, o ministro da Defesa português afirmou que escrever a história exige que os investigadores tenham acesso aos documentos necessários para confrontar e confirmar os factos.
"Quando se escreve a história", afirmou, é necessário permitir "o acesso aos arquivos de investigadores, que assim a escrevem com verdade".
"Não se consegue escrever a história com verdade se não a conseguirmos verificar factualmente. E essa verificação factual acontece através de documentos e num propósito que é bom, que é este propósito de reconciliação, de quem celebrou acordos, apertou a mão e viu o futuro com esperança e focado no desenvolvimento dos dois povos", declarou Nuno Melo.
O governante português lembrou ainda a dimensão humana que permanece ligada a esse passado. Portugal conta actualmente com cerca de 130 mil antigos combatentes vivos, enquanto Moçambique tem aproximadamente 120 mil.
Para Nuno Melo, a preservação e consulta dos arquivos representa, por isso, também um acto de "reconciliação", além de constituir uma condição necessária para garantir direitos que dependem da existência e conservação desses registos históricos.
"Eu levo a celebração deste acordo como uma das parcelas mais importantes desta deslocação da delegação portuguesa a Moçambique. Porque nós estamos a honrar aqueles a quem devemos tudo. Realmente. E nisso estamos a construir qualquer coisa. Estamos a preservar a memória", afirmou.
Durante a deslocação, Nuno Melo reuniu-se igualmente com o ministro da Defesa Nacional de Moçambique, Cristóvão Chume, e prestou homenagem aos combatentes portugueses da Primeira Guerra Mundial.
A visita serviu também para o governante português reafirmar a profundidade das relações históricas entre os dois países, defendendo que estas não podem ser reduzidas ao período do conflito armado.
"Portugal e Moçambique estão unidos para todo o sempre. A nossa história é partilhada e eu devo dizer que não se mede apenas por um conflito. É muito mais o que nos une do que aquilo que nos separa", enfatizou.
Nyeleti Mondlane destacou, por sua vez, que uma parte substancial dessa história comum depende precisamente dos documentos guardados nos arquivos militares.
Segundo a ministra, é nesses acervos que permanecem registados factos, nomes, lugares e datas que já não podem depender exclusivamente da transmissão oral.
"Grande parte desta história" comum, recordou, é reconstituída "a partir de arquivos militares, onde se encontram registados os factos, os nomes, os lugares e as datas que a memória oral, que só por si, já não retém, e que as gerações mais novas de um lado e do outro têm o direito de conhecer".
A governante recuou então 52 anos, até Lusaka, onde representantes moçambicanos e portugueses negociaram o fim da guerra e estabeleceram as bases para uma nova relação entre os dois povos.
Há 52 anos, disse, moçambicanos e portugueses "sentaram-se à mesa para pôr fim a uma guerra e abrir uma nova página nas relações entre os dois povos".
Mais de meio século depois, Maputo tornou-se novamente o cenário de um encontro entre os dois países em torno dessa mesma história — agora não para encerrar o conflito, mas para garantir que os seus vestígios documentais sobrevivam ao tempo.
"Hoje, em Maputo, os dois países sentam-se de novo para assegurar que essa página e todas as que antecederam sejam preservadas e integralmente conhecidas. A história que separou os dois povos é hoje a mesma que nos une."
Para Nyeleti Mondlane, o memorando representa, assim, mais do que um compromisso técnico de conservação de arquivos. É também uma declaração sobre a relação que Moçambique e Portugal construíram depois da guerra.
"Ao assinar o presente memorando, Moçambique e Portugal reafirmam que a sua ligação assenta na língua que partilham, na memória que preservam em comum e no respeito mútuo que os dois povos souberam conquistar. É um laço de irmandade que o tempo consolidou e que nenhum tempo pode desfazer", concluiu.
