A guerra no Médio Oriente poderá travar ainda mais o crescimento económico africano — mas, no meio da turbulência, Moçambique surge como um dos poucos países que poderão beneficiar da crise. Ainda assim, o ganho poderá vir acompanhado de riscos estruturais e pressões económicas que ameaçam todo o continente.
Um relatório divulgado na quinta-feira por duas agências das Nações Unidas, em conjunto com a União Africana e o Banco Africano de Desenvolvimento, alerta que as economias africanas poderão perder até 0,2 pontos percentuais do crescimento do PIB em 2026 caso o conflito se prolongue por mais de seis meses.
O documento, apresentado na reunião da Comissão Económica das Nações Unidas realizada em Tânger, descreve um cenário em que a guerra prolongada provocaria perturbações nas rotas comerciais, no fornecimento de energia e na disponibilidade de fertilizantes — factores capazes de desencadear um abrandamento económico significativo em África.
"Quanto mais tempo durar o conflito e quanto mais severas forem as perturbações nas rotas marítimas e no fornecimento de energia e fertilizantes, maior será o risco de um abrandamento significativo do crescimento no continente", refere o relatório.
Embora não tenha sido quantificado o impacto directo na inflação, o documento alerta que a crise poderá rapidamente transformar-se numa nova crise do custo de vida em África, impulsionada pelo aumento dos preços dos combustíveis e dos alimentos. Alguns países africanos, sublinha o relatório, poderão ser mais afectados pela escassez de fertilizantes do que pela subida dos preços do petróleo.
A interrupção do fornecimento de gás natural liquefeito proveniente do Golfo poderá comprometer a produção de amoníaco e ureia, elevando os custos dos fertilizantes e reduzindo a oferta durante o período crucial de plantio entre Março e Maio — um factor com potencial para pressionar ainda mais a segurança alimentar.
O Médio Oriente representa actualmente 15,8% das importações africanas e 10,9% das exportações do continente, evidenciando o grau de dependência comercial e energética.
Contudo, nem todos os países africanos sairiam prejudicados. O relatório aponta que alguns Estados produtores de energia poderão beneficiar do aumento dos preços internacionais. Entre eles, Moçambique destaca-se como exportador de gás natural liquefeito, ao lado da Nigéria, produtora de petróleo.
Além disso, o país começa já a sentir outro efeito directo da crise: o aumento do tráfego no Porto de Maputo. Com as rotas marítimas a serem desviadas, o porto moçambicano surge como uma alternativa logística, juntamente com Durban, na África do Sul, Walvis Bay, na Namíbia, e as infra-estruturas portuárias das Maurícias.
Este reposicionamento logístico poderá reforçar o papel estratégico de Moçambique no comércio regional, sobretudo se a instabilidade no Médio Oriente persistir.
O relatório destaca ainda outras dinâmicas emergentes no continente. No Leste de África, o Quénia começa a afirmar-se como centro logístico através do Porto de Lamu e de Nairobi, enquanto a Etiópia beneficia do seu papel como ponte aérea de emergência entre Ásia, África e Europa, através da Ethiopian Airlines.
Paralelamente, os analistas alertam para um possível aumento da competição geopolítica em África, caso o conflito no Médio Oriente se alargue. Estados Unidos, países do Golfo, China, Rússia, Irão e Turquia poderão intensificar a disputa por influência no continente.
Essa escalada poderá também encarecer as operações humanitárias, particularmente em regiões vulneráveis como o Sudão e o Corno de África.
Num contexto em que o crescimento africano permanece frágil e os níveis de dívida continuam elevados, o relatório recomenda que os governos reforcem a mobilização de receitas internas, coordenem a aquisição de combustíveis, estabeleçam corredores alimentares de emergência e adoptem medidas de protecção social direccionadas. Recomenda ainda que os países produtores de energia, como Moçambique, poupem eventuais receitas extraordinárias.
Claver Gatete, secretário executivo da Comissão Económica das Nações Unidas para África e co-autor do relatório, afirmou que ainda é cedo para quantificar com precisão o impacto da guerra na inflação e no crescimento africano.
Apesar da incerteza, uma conclusão emerge com clareza: enquanto grande parte de África enfrenta riscos económicos crescentes, Moçambique poderá encontrar, no meio da crise global, uma oportunidade estratégica — desde que consiga transformar ganhos temporários em vantagens estruturais duradouras.
