Trata-se de Miguel Gonçalves, administrador do Parque Nacional de Maputo, de 49 anos, casado e pai de dois filhos. Natural de Maputo, zona sul de Moçambique, Miguel Gonçalves disputou o galardão com administradores do Quénia e da Tanzânia. O prémio foi-lhe entregue na primeira quinzena de Novembro, em Londres, por Sua Alteza Real William, Príncipe de Gales, no decurso da décima gala.


Miguel é o vencedor do Prémio “Tusk Conservation Awards 2022”, distinção que surge como reconhecimento do perfil dos líderes de conservação e seu significativo impacto na vida selvagem e nas comunidades em toda a África.

Em conversa com a revista Xonguila, Miguel Gonçalves começou por explicar que, quando assumiu o desafio de liderar uma das áreas de conservação mais importantes do país, em 2008, não era administrador. “Nos tínhamos duas áreas de conservação no distrito de Matuítuine, na Província de Maputo, que eram a Reserva Especial de Maputo e a Reserva Marinha Parcial da Ponta de Ouro. Fui chamado para assessorar tecnicamente a, na altura, Direcção Nacional das Áreas de Conservação (DINAC), hoje Administração Nacional das Áreas de Conservação (ANAC), na criação da Reserva Marinha Parcial da Ponta de Ouro. Era um processo que estava numa fase bastante avançada, mas, mesmo assim, contribuí, de alguma maneira, para a conclusão da sua criação, tendo ela sido estabelecida em 2009. No mesmo ano, fui nomeado administrador por Fernando Sumbana, então Ministro do Turismo”.

Em 2017, Miguel Gonçalves passou a acumular as funções de administrador da Reserva Especial de Maputo e da Reserva Marinha Parcial da Ponta de Ouro. “Começo nessa altura o processo de unificação das duas áreas de Conservação no que se transformaria naquilo que é hoje o Parque Nacional de Maputo”, disse, acrescentando que um dos principais desafios na parte marinha eram os limitados recursos de que dispunham, principalmente recursos humanos: “Quando a Reserva foi declarada, existiam apenas dois funcionários, eu e um fiscal. Depois, fomos melhorando, contratando e recebendo mais colegas. Um outro desafio, não menos importante, esteve associado, o de fazer passar uma Reserva do papel para Reserva efectiva. Havia vários desmandos na altura, as pessoas não percebiam que havia uma nova autoridade na área e que a mesma tinha uma forte presença. As comunidades locais não percebiam qual era o nosso papel e a importância que nós poderíamos ter para as suas vidas, fomos estabelecendo relações. Portanto, todo um processo de pesquisa e monitoria para a criação de uma área de conservação”.

Em relação à Reserva Especial de Maputo, o cenário foi diferente, pois o processo vinha decorrendo, tratava-se da recuperação de uma reserva que datava de 1960 e que, por várias razões, com a guerra civil em Moçambique, ficou severamente afectada. “Tivemos que iniciar o processo de reintrodução das espécies que tinham sido localmente extintas devido à guerra, com o objectivo de tornar a área um dos destinos turísticos preferenciais e que permitirá criar desenvolvimento local”, destacou Miguel Gonçalves.

Cruzando o passado e o presente, o Parque passou de um campo de caça para um dos mais relevantes viveiros de vida selvagem, grande mérito que Gonçalves atribui à equipa de fiscalização. “Temos uma equipa de fiscalização empenhada e comprometida com o que faz, e, esses sim, são os grandes obreiros deste grande resultado que temos hoje. Ganhar este prémio é um orgulho, e é uma honra saber que o nosso trabalho é reconhecido nacional e internacionalmente. Este é um prémio de prestígio muito importante. É preciso também reconhecer que vem reflectir aquilo que nós, como Parque Nacional de Maputo, temos feito.”

Recorde-se que este não foi o único prémio recebido: “Já tivemos outros dois prémios quando estávamos apenas na parte marinha, eu e o meu colega tivemos prémio idêntico em representação do continente”, afirmou Miguel, cujos planos para o futuro consistem essencialmente em dar seguimento ao trabalho que está sendo desenvolvido, com a mesma entrega e dedicação. “Continuamos com a reintrodução da fauna terrestre e marinha. Estamos muito comprometidos com o apoio às comunidades e tentando declarar o Parque Especial de Maputo património mundial natural”, concluiu.