Aos 17 anos, Diana Manhiça não perdeu a ambição de ser enfermeira. Acorda diariamente às 05h00 para preparar badjias e apas que vende à porta de casa, no coração do bairro da Mafalala, em Maputo. Enquanto sustenta o filho de dois anos, mantém-se firme na escola, enfrentando o peso de uma gravidez precoce e não planeada — uma realidade que partilha com milhares de outras adolescentes moçambicanas.

Diana é uma das jovens ouvidas em entrevista à Lusa, cujas histórias dão rosto às estatísticas reveladas no relatório “Situação da População Mundial 2025”, apresentado em Maputo pelo Fundo das Nações Unidas para a População (FNUAP). O documento revela que Moçambique tem a quarta maior taxa de natalidade na adolescência do mundo, com 158 nascimentos por mil raparigas entre os 15 e os 19 anos, entre 2001 e 2024.

No bairro da Mafalala, histórias como a de Diana repetem-se. Hortênsia Zefanias, de 21 anos, foi mãe aos 17. Tentou abortar, sem sucesso, e só contou à mãe — que vive em Inhambane — após o parto. Vive com o companheiro e os filhos numa casa partilhada com a sogra e o cunhado, entre biscates e dificuldades. Deixou a escola no 10.º ano, mas sonha regressar e tornar-se empreendedora. “Somos felizes, apesar das dificuldades”, afirmou em declarações à Lusa.

Cíntia Tembe, de 16 anos, é outra jovem mãe na Mafalala. A gravidez foi descoberta pela cunhada, Hortênsia, quando tinha apenas 14 anos. O namorado negou a paternidade e Cíntia teve de lidar com responsabilidades que ultrapassavam a sua idade. Hoje tenta concluir o 9.º ano e assume que o seu foco é a filha, sem espaço para namoros ou mais filhos. “Lutar pela minha família”, partilhou à Lusa, ainda nervosa com as memórias.

Segundo o FNUAP, a população moçambicana deverá duplicar em 25 anos, partindo dos actuais 35,6 milhões de habitantes, dos quais 44% têm menos de 14 anos e apenas 3% têm mais de 65 anos. O relatório destaca ainda que quase metade das raparigas moçambicanas (48%) entra em uniões prematuras e que uma em cada três mulheres não consegue decidir sobre o número de filhos que quer ter, devido à falta de acesso à saúde sexual e reprodutiva.

Entre as mulheres mais velhas, o retrato repete-se. Emília Rodrigues, conhecida como Maimuna, engravidou pela primeira vez aos 17 anos. Hoje, aos 35, tem quatro filhas, de três pais diferentes. Nenhuma das gravidezes foi planeada. “É que para ter essas todas, eu queria um rapaz”, contou à Lusa, entre sorrisos e lamentos, enquanto preparava o chá para as filhas, todas hoje com acesso à escola e já protegidas por métodos contraceptivos.

O planeamento familiar surge como esperança para quebrar o ciclo. Muitas, como Diana, colocaram implante logo após o parto. “Faria sem pensar duas vezes”, afirmou. Quer evitar que o filho repita o mesmo percurso. “Vou-lhe contar tudo sobre métodos contraceptivosok, . Tem de ser com tempo”, disse, sem esconder o desejo de, um dia, ter mais um filho — mas com outro olhar, com mais preparação.

Apesar de todas as dificuldades, estas raparigas mantêm acesa a chama dos sonhos. Enfermeiras, empreendedoras, mães melhores. Resistência num país onde os números são duros, mas onde, dia após dia, elas insistem em desenhar outro futuro.