Mangais

Nos esforços de restauração do ecossistema, o exemplo de Incassane

Escrito por Precidónio Silvério


Moçambique deve reflorestar, até ao fim do ano 2022, cerca de 5000 mil hectares de mangais, de acordo com as projecções da Estratégia Nacional e Plano de Acção para a Gestão do Mangal em Moçambique estabelecida pelo Governo. A situação dos mangais no país não é das melhores. São extensas as áreas destruídas, um grande problema que ao longo de décadas se foi consolidando. As mudanças climáticas estão entre as causas da destruição dessa biodiversidade, mas o maior vilão é o próprio Homem.  

A Estratégia Nacional e Plano de Acção para a Gestão do Mangal, em curso desde 2018 e com término previsto para 2023, assenta em cinco pilares. O primeiro tem a ver com a gestão, protecção e uso sustentável do ecossistema, assegurando não só que sejam de forma participativa, mas também a diversificação dos meios de subsistência das comunidades circunvizinhas. Um outro pilar, o de educação e consciencialização ambiental, prevê desenvolver o interesse dos estudantes pelo ecossistema dos mangais, bem como promover e realizar a consciencialização pública sobre a matéria, dadas as grandes repercussões de uma área de mangal devastada nas espécies marinhas e na vida das pessoas que dependem de tal ecossistema. Os outros pilares estão virados para questões de legislação e fiscalização, bem como para pesquisas no domínio do meio ambiente.  

Um longo caminho, mas importa começar
É quinta-feira. O dia começa nebuloso. As nuvens cobrem o sol e alguns chuviscos teimam em cair. O ponteiro do relógio marcava 9:30, hora em que a Revista Xonguila seguiu viagem rumo ao mangal de Incassane, no distrito municipal da Katembe, na baía de Maputo. Situado a sul da cidade de Maputo, o distrito é limitado, a norte e leste, pela Baía de Maputo, a sul, pelo Distrito de Matutuíne, através da Avenida do Metical, e, a oeste, pelo Distrito de Boane, através do Rio Tembe. Chegada ao local, a equipa da Xonguila dá os primeiros passos, apenas alguns. A maré está baixa. Nativos explicam que naquele período isso sucede nas primeiras horas do dia, mas, no início da tarde, as águas desatam a ganhar vida.

À primeira vista, e de longe, marcas que revelam o lado negativo da acção humana tornam-se evidentes. Parece ali existir um campo de futebol, mas engana-se quem assim pense. São centenas de plantas de mangais sacrificadas. Comunidades locais e pessoas idas desbravam e continuam a desbravar os mangais para fins de sobrevivência e não só. O cenário repete-se em quase todas as áreas de mangais que a baía de Maputo possui. Tal é o caso das zonas de Muntanhana, Mapulene, Machangulo (no distrito de Matutuíne, província de Maputo), por exemplo. Mas nem tudo vai mal. Se, por um lado, marcas de destruição se evidenciam, por outro, começa a nascer um ecossistema renovado. Há por ali um projecto que se dedica ao replantio do mangal, e o verde, cada vez mais nítido, é disso prova. O projecto é da Associação Eden Reforestation, com sede na cidade de Maputo, e consiste no reflorestamento das áreas destruídas desde 2019, ano em que a organização começou as suas actividades. Representada por Hermenegildo Cuamba, desenvolve as suas actividades nas províncias de Sofala e Maputo, dada a sua critica situação. A agremiação, um dos parceiros do Governo, tem uma meta a cumprir: replantar os mangais em cerca de 3000 hectares, até ao fim do ano 2022. Destes, já entregou ao Executivo 1000 hectares. “O Governo partilhou as suas metas, e nós abraçámo-las. Numa primeira fase, tinha-se prometido replantar uma determinada área, mas depois ofereceram-nos repor os mangais numa área de 3000 hectares”, explicou Hermenegildo Cuamba.

O projecto de replantio dos mangais desenvolvido por esta associação incide, essencialmente, nas províncias de Maputo e Sofala. Mas isso não basta, a associação pretende chegar a outros pontos do país e renovar o ecossistema. Hermenegildo Cuamba descreve o projecto como não sendo apenas de cariz ambiental, mas também social. É que, conforme disse, o projecto privilegia a empregabilidade, pois mais de 300 colaboradores, na sua maioria jovens, trabalham no reflorestamento dos mangais. “Para além de replantar os mangais, privilegiamos a oferta de emprego aos jovens. Todos eles são remunerados pela colaboração que dão”, disse.  

Salvar mangal passa por mudar hábitos das comunidades
Em Moçambique, as estimativas de área de mangal apontam para as províncias de Cabo Delgado, Nampula, Zambézia, Sofala, Inhambane, Gaza e Maputo, mais concretamente para a foz do rio Rovuma, a baía de Nacala, o delta do Zambeze, o Chiveve, a foz do rio Save, o estuário do Limpopo e a baía de Maputo, respectivamente, pontos que são apenas parte das áreas de mangal que essas mesmas províncias possuem.

Segundo a Estratégia Nacional e Plano de Acção para a Gestão do Mangal, mais de 60 por cento da população moçambicana vive na zona costeira, sendo altamente dependente dos recursos e ecossistemas costeiros. Fazendo as contas, a maior parte da população convive directamente com este recurso natural e dele depende para a sua sobrevivência. Márcia Nrepo, do Instituto Nacional de Investigação Pesqueira, instituição subordinada ao Ministério de Pescas, Mar e Águas Interiores, não descarta a pressão que essas populações fazem e fizeram durante muito tempo nos mangais existentes nas comunidades em que vivem. A maior parte delas é pobre, dependendo muito do combustível de biomassas. Para confeccionar os alimentos, recorrem à lenha e ao carvão vegetal, e o único recurso para transformar nesse combustível são as plantas dos mangais. Assim, aquela integrante da equipa organizadora da referida Estratégia e Plano de Acção aponta algumas saídas para salvaguardar os mangais, entre as quais a transferência de tecnologias para as comunidades: “Uma das formas de reduzir as chances de destruição dos mangais seria, seguramente, criar condições para que as comunidades tenham outras opções de combustível para uso no seu dia-a-dia, o que passa por considerar alternativas tecnológicas”.  E Márcia Nrepo prossegue: “Por exemplo, se levarmos a essas comunidades mecanismos de geração de energia solar, como combustível para a maioria das suas necessidades, iluminação e confecção de alimentos, por exemplo, os seus hábitos mudarão e o seu comportamento para com os mangais será diferente”, explicou.

Para o renomado activista ambiental Carlos Serra, é urgente haver acções evidentes e que o seu impacto seja directamente proporcional à melhoria da situação dos mangais. Para este ambientalista, é preciso que haja combinações de todas as formas destinadas a travar a destruição deste ecossistema. “O cenário não é bom. Para o reverter, precisamos de ver o problema de forma conjunta, e, paralelamente a isso, é crucial juntarem-se todas as saídas: gestão dessas áreas, consciencialização e ter as leis aprovadas a funcionar”, precisou. Carlos Serra apontou ainda o activismo como chave para a busca das mudanças que se pretende ver. Para além de protegerem a costa, os mangais favorecem o crescimento da produção pesqueira e a reprodução das espécies de camarão e caranguejo, produtos pesqueiros que estão entre os maiores contribuintes para as receitas e a economia geral do país.