Há histórias mais caricatas do que outras, e há projectos cuja origem merece ser contada. O lançamento do livro Mulheres em Acção: Elas Empreendem e Transformam Moçambique é um bom exemplo. Uma manhã, Patrícia Vasco enviou um áudio a Eliana Silva a contar que tinha sonhado com ela e que achava que iam fazer algo grandioso juntas; no dia seguinte, a segunda respondeu-lhe com a solução: “Tenho uma ideia, e tu és a pessoa perfeita para a implementar comigo”. Na prática, nenhuma das duas sabia onde se estava a meter.
Foi mais ou menos assim que Eliana Silva apresentou a Patrícia Vasco aquilo que daria corpo, um ano depois, ao livro Mulheres em Acção: Elas Empreendem e Transformam Moçambique, uma colectânea de 19 entrevistas a mulheres empreendedoras, dos mais diversos sectores e de várias províncias moçambicanas. Na prática, os 11.990km que distanciam as duas amigas (ambas empreendedoras) não foram entraves para que, meses depois de ter falado sobre o projecto, tivessem o conteúdo feito e todas as outras empreendedoras fotografadas e animadas com a iniciativa. “Foi um processo bastante orgânico, e divertido até. Eu e a Patrícia já nos cruzámos noutros contextos, completamente diferentes, e aquela mensagem foi o empurrão de que precisava para colocar esta ideia em prática. Nos últimos anos, relemos e ouvimos, em vários espaços, que há falta de narrativas africanas, especialmente sobre mulheres e escritas por mulheres. Então, por que não colocar mãos à obra?”, partilha Eliana Silva, que neste projecto assumiu o papel de escriba.
“Eu sou empreendedora há muitos anos. Já fiz e criei de tudo e sei o quão solitário é todo este processo: empreender é um salto de coragem. Um acto de fé. Como uma gestação, é espera, sonho, expectativa, futuro. E estes últimos meses foi o que andámos a fazer: a gerar um sonho”, comenta a produtora, Patrícia Vasco.
Desde o início que o objectivo de ambas era criar mais do que uma peça cultural. Nas suas palavras, nutridas de entusiasmo, vê-se que queriam criar um movimento. A sinergia entre as duas é notória: de um lado, a ponderação e a segurança de Patrícia, e, do outro, a ousadia (quase desmedida) de Eliana. “O empreendedorismo sempre fez parte das realidades das duas. E quisemos mostrar todos esses momentos: as gargalhadas de felicidade de um novo cliente, a ansiedade dos ordenados para pagar e o nervosismo de um novo pitch”, conta Patrícia.
“Eu digo, sem rodeios, que adoro dinheiro. Mesmo. E se há coisa na qual eu tenho muito orgulho, é que as minhas palavras consigam fazer com que estas 19 empreendedoras consigam ganhar mais dinheiro, gerar mais renda para si e para os seus empregados e contribuir para um Moçambique mais forte e mais rico. Tanto eu como a Patrícia crescemos sob o conceito da mulher guerreira que resolve e próspera, muitas vezes sem o devido reconhecimento. Este livro, espero, é só o início. Queremos voltar a fazer 19 capítulos, mas com outras personagens, para que, a cada 5 anos, estejamos a citar Shaazia Adam em vez de Coco Chanel, ou Tamara Bhatt em vez de Óscar Niemeyer”, escreve Eliana.
Esta desenvoltura, misturada à vaidade e vontade de criar coisas bonitas e com impacto, levou a um processo incansável para angariar dinheiro para a publicação do livro. Depois de baterem a centenas de portas, o projecto teve o patrocínio do Nedbank Moçambique, da Ipanema Moçambique, da Pertence, e contou com um certo número de negócios que se juntaram, inclusivé para um evento de angariação de fundos que aconteceu durante o mês de Abril, no Sukri Café, em Maputo, onde todas as empreendedoras deram a sua contribuição, com os seus bens ou serviços.
“Quisemos construir algo que não fosse para nós: que fosse do mundo. Que este livro traga mais beleza e mais renda a cada uma destas mulheres. Ele não é nosso, é do mundo”, afirmam as promotoras, quase em uníssono.
