Kubhula

A palavra a Márcio Luiz, co-fundador

Kubhula é uma palavra da língua changana que significa conversar. Não dizemos que uma boa conversa seja uma panaceia para todas as dificuldades e desafios possíveis, mas acreditamos piamente que ajuda a apontar na direcção correcta, no mínimo! Ao nomearmos o podcast assim, foi com a intenção de que este nome representasse essa comunicação interactiva, mas borrifada com a nossa moçambicanidade. Nos dias de hoje, por mil e dois motivos, temos mais conversas virtuais do que presenciais, e a conversa de onde surgiu a ideia de criar um podcast não foge a essa regra. 
Foi em 2018, num pequeno grupo de WhatsApp de amigos chegados, mas separados pela distância, expostos a uma multiplicidade de ambientes, o que muitas vezes desperta uma maior variedade - e qualidade - de ideias, que começámos a namorar a possibilidade de criarmos um podcast. Nem sempre é fácil interligar a parte profissional das nossas vidas com actividades não profissionais, mas o Kubhula é um projecto que ocupa e irá para sempre ocupar um lugar especial nos nossos corações, pois existe uma relação de reciprocidade muito bem vincada entre nós e, a cada episódio, ela torna-se mais forte e recompensadora. Esta perspectiva torna todas as fases do processo de criação (produzir, agendar, gravar, editar, publicar, etc.) um pouco menos complexas. Como já dizia o velho ditado, quem corre por gosto não se cansa!

Podcast é a junção de duas palavras: iPod e broadcasting - esta última originária do mundo da rádio. Apesar de existirem diferenças consideráveis entre estes dois “media”, o combinar a influência e cultura de rádio - que é significativa a nível das bases em todo o nosso continente africano, tendo um alcance incomparável – com o omnipresente telefone celular e acesso a tecnologias modernas que este facilita faz com que exista um sweet spot onde o Kubhula e o seu conteúdo vivem. Ora, as histórias “made in moz” criam ligações entre a nossa identidade pessoal e a do nosso país e têm a capacidade de influenciar e reforçar o senso de individualidade de cada um de nós. Cada uma destas narrativas proporciona-nos um melhor contexto, um contexto que nos ajuda a entender melhor a sociedade onde estamos inseridos e, ao mesmo tempo, nos dá diferentes tipos de recursos que podemos usar para construir as nossas próprias histórias. Ao partilharmos histórias, abrimos espaço para encontrarmos e nos focarmos nas semelhanças, ao invés de nas diferenças, forjarmos ligações entre pessoas e ideias, e, em simultâneo, criarmos condições e soluções para que, juntos, possamos ajudar o nosso jovem país a chegar onde sabemos que pode chegar.

Sempre fomos fãs deste formato, como também ouvintes de vários podcasts, mas, infelizmente, grande parte do que há disponível online, apesar de interessante e de muito boa qualidade, é conteúdo de fora do nosso país, com o qual não temos um envolvimento emocional que nos faça sentir que é connosco e para nós que estão a falar. Foi esta necessidade intrínseca de nos sentirmos conectados com as pessoas e histórias da nossa terra, e acharmos que de certeza haveria mais gente a sentir o mesmo, que foi e continua a ser a nossa motivação. Na África Ocidental existe o termo “griot”, que consiste num indivíduo responsável por absorver e transmitir história, cultura e memórias ancestrais de geração para geração. Nós procuramos os “griots contemporâneos”, e na nossa sociedade é incrivelmente simples encontrá-los. É esta gente de várias idades, sexo, raças e escalões sociais com a capacidade invulgar de inspirar, entreter e iluminar com as suas histórias que cumpre com o nosso critério de convite.

“O nosso posicionamento é o de criar uma plataforma e espaço, o de criar conversas profundas sem limites de tempo e espaço, dando voz a histórias que devem ser contadas” 

O Kubhula tem três fundadores e, apesar de partilharmos a mesma visão, temos gostos e personalidades totalmente distintas, o que naturalmente se reflecte nos nossos interesses. Mas temos em comum a vontade de aprender. Cada conversa que temos com diferentes convidados é um momento de aprendizagem, e quanto menos soubermos sobre o tópico da conversa mais interessados estamos e mais gozo temos em o explorar. Moçambique é um país com várias histórias que merecem ser ouvidas e partilhadas.

Acreditamos que o nosso posicionamento é o de criar uma plataforma e espaço, o de criar conversas profundas sem limites de tempo e espaço, dando voz a histórias que devem ser contadas, desenvolvendo durante esse processo um arquivo digital que pode ser acedido, em qualquer lugar e a qualquer hora, por qualquer um. Os convidados que já passaram pelo podcast são todos únicos por si sós, mas há algo em comum em todos eles. Nós gostamos de os chamar de "griots contemporâneos". É gente independentemente da idade, raça, sexo e escalão social com a capacidade invulgar de inspirar, entreter e iluminar com as suas histórias que cumpre com o nosso critério de convite. A maior parte do nosso público está baseada em Moçambique e tem idades compreendidas entre os 25 e os 35 anos, sendo predominantemente do sexo feminino. Muitos dos nossos participantes chegam ao nosso estúdio com algum medo ou receio, talvez por estarem em frente do microfone, rodeados de pessoas que nunca tinham visto e com que nunca tinham falado, à espera de serem interrogados. Mas, assim que se apercebem do que se trata e sentem o à-vontade e a essência do Kubhula, tudo passa, e a conversa flui. É nesse momento que conseguimos extrair o maior valor desta experiência.

Houve uma época em que a rádio estava omnipresente na vida das pessoas. Mas o surgimento da televisão mudou os hábitos das famílias e ouvir a rádio tornou-se praticamente algo restrito aos carros. O reinado da televisão, por sua vez, ainda persiste. Na última década, porém, os smartphones começaram a roubar a atenção que costumava ser dada às telas de televisão. Muitas pessoas gostam de comparar podcasts com rádio, mas podcasts não são rádio, não é assim tão linear. Enquanto o conteúdo da rádio dura pouco tempo e acontece ao vivo, o podcast é o que se chama de mídia fria: pré-gravado, projectado para ser consumido hoje ou ao longo dos anos a partir de agora.

Acreditamos que o nosso crescimento tem que ser uma consequência do nosso trabalho e é exactamente isso que tem vindo a acontecer. O nosso público-alvo é um nicho de mercado. Se quisermos ser tudo para todos, agradar a gregos e troianos, corremos o risco de nos tornarmos genéricos e irrelevantes. O Kubhula vai chegar onde tiver que chegar e enquanto tiver que chegar. Enquanto fizer sentido e adicionar valor. Dentro do próprio Kubhula existem vários segmentos, como, por exemplo, o Kubhula Online, que é com convidados na diáspora, e também o Kubhula RAW, que é, mais recentemente, um segmento onde não há filtro e onde reagimos e comentamos sobre vários assuntos da actualidade, locais e internacionais, e damos a nossa opinião nua e crua. Estamos também a desenvolver projectos com algumas rádios e outras instituições.