O universo literário infantil tem como finalidade mais do que apenas entreter; deve educar, sensibilizar e reflectir a rica conjuntura cultural de uma nação. Foi com essa premissa que nasceu "Kioni, A Pequena Mandingueira", um projecto literário inovador centrado na valorização da cultura moçambicana e na promoção de valores sustentáveis. É uma série em que a rica diversidade cultural de Moçambique é uma constante. Desde a pequena aldeia onde a história se desenrola, passando pelas interacções diárias dos personagens, até aos detalhes nas ilustrações, tudo respira moçambicanidade.
Há cerca de 7 anos, a criadora de Kioni, Joana Vasconcelos, identificou uma lacuna na literatura infanto-juvenil relacionada com a capoeira, arte desenvolvida por descendentes de escravos africanos no Brasil com a qual tinha uma relação profunda abrangendo mais de duas décadas. Enquanto a capoeira harmoniza movimentação, musicalidade, ludicidade e uma potente herança histórica, faltavam na literatura histórias que retratassem estes conceitos tão intrínsecos a esta arte: respeito, partilha, amizade, ancestralidade. Assim, nasceu o desejo de criar uma obra literária que fizesse jus a tal riqueza. A pausa imposta pela pandemia da covid-19 acabou por ser a oportunidade perfeita para dar vida ao projecto. Em 40 dias, a criadora desenvolveu uma colecção completa de 8 livros que mergulham no universo encantador de Kioni, uma pequena mandingueira que se tornaria um ícone para crianças em Moçambique e além-fronteiras. Kioni representa a moçambicanidade, o resgate de brincadeiras tradicionais, a importância da amizade, da partilha e do respeito. Diferente dos super-heróis convencionais que voam ou empunham espadas mágicas, a força de Kioni está na sua essência, representando a força interna que reside em cada criança.
E como se mede o impacto de um projecto destes? A aceitação da obra foi clara e diversificada. De imediato apareceram desde bonecas de pano feitas à semelhança de Kioni e escolas adaptando as histórias para peças teatrais, até à adopção do tema Kioni para festas de aniversário. Esse carinho do público é uma prova cabal do sucesso e relevância do projecto. A obra foi além das fronteiras moçambicanas, estando traduzida para o francês e sendo vendida em países como a França e a Suíça.
"Kioni, A Pequena Mandingueira" não se restringe à de leitura. O projecto foi concebido para ser uma experiência imersiva que se estende à musicalidade, jogos tradicionais e sessões de storytelling, proporcionando diversas actividades educativas e lúdicas. O universo da personagem abre caminho para a exploração da capoeira, do brincar tradicional moçambicano e da conexão com a rica tapeçaria cultural do país. Com o apoio de parceiros como o Ministério da Cultura, a Livraria Sequoia, o Centro Cultural Brasil-Moçambique, a Embaixada da Irlanda e a UNICEF, Kioni tornou-se mais do que um livro, transformando-se num instrumento para abordar assuntos sociais relevantes, promover a literacia e valorizar a cultura moçambicana.
Mas o sucesso e inovação do projecto não estiveram isentos de desafios. Mergulhar no mundo literário, conciliar a rotina e lidar com incertezas são desafios que qualquer criador enfrenta, no entanto, o carinho e apoio da comunidade – verdadeira "aldeia" que se uniu em torno de Kioni – foram essenciais para superar essas barreiras.
E o futuro? Os fãs de Kioni podem esperar por mais aventuras e descobertas. Dos 8 livros planeados, apenas dois foram lançados, garantindo que muitas mais histórias e ensinamentos virão. Kioni é, sem dúvida, uma jornada literária que promete continuar a enriquecer, educar e inspirar. E, como numa roda de capoeira, o movimento não pára; ele apenas muda de ritmo e direcção, levando consigo a paixão e propósito de partilhar a cultura moçambicana com o mundo.
