A minha jornada na cerâmica começou durante os isolamentos da pandemia. Comecei a consumir muito conteúdo online e ganhei interesse por algumas meninas que faziam cerâmica no Youtube. Adorei a ideia de vê-las tomar café e matabichar em louça feita por elas próprias, e decidi que queria experimentar também. De início foi muito difícil ter acesso ao barro em Maputo e a quem desse aulas de cerâmica, mas após alguns meses de procura encontrei o Mapfara Sitoe, com quem comecei as aulas de cerâmica. Foi amor ao primeiro toque. Apesar de ter sido desafiador começar uma coisa totalmente nova e ter de enfrentar a insegurança que vem do não saber fazer algo como esperado, adorei tudo sobre a cerâmica logo de início! O meu interesse inicial era só fazer pratinhos e chávenas, como as meninas do Youtube que eu seguia, e possivelmente lançar um pequeno negócio online, mas felizmente o Mapfara desafiou-me a puxar mais pela minha criatividade e encontrar na cerâmica um canal para a minha expressão artística, tanto que acredito que hoje as minhas criações são uma combinação de peças funcionais com um toque artístico. À medida que crescia a minha dedicação à cerâmica, fui percebendo realmente o que quero fazer. Tem sido uma jornada muito linda poder explorar a minha criatividade e expressar diferentes lados de mim, para os quais por vezes me falta segurança nas palavras.

Quem vem para as aulas de cerâmica no meu atelier encontra tudo preparado, tem apenas de aparecer e criar

Já o atelier Kappausse, nasceu quando me apercebi que, tal como eu tive dificuldades no início para encontrar quem pudesse dar aulas, saber onde encontrar o barro e como queimar as peças, existiam muitas outras pessoas que também tinham interesse na arte da cerâmica, mas o acesso era muito limitado. Decidi então expandir o meu espaço e receber mais pessoas para conhecerem a magia do barro. Quem vem para as aulas de cerâmica no meu atelier encontra tudo preparado, tem apenas de aparecer e criar.

Tudo me inspira, sinto que encontro na cerâmica um veículo para auto-reflexão e expressão, o que me facilita expressar muitas coisas para as quais se calhar ainda nem tenho vocabulário falado. Apesar de ter começado a fazer cerâmica muito recentemente, acredito que tenho vivido várias fases de expressão, e cada uma motivada por diferentes factores. Mas um denominador comum é sempre a minha interacção intelectual, sensual e até espiritual, com as diversas manifestações da energia feminina, principalmente através do corpo e da natureza. Por mais que esteja em constante (des)construção da minha expressão artística, representações do corpo feminino, da lua e do mar são elementos constantes nas minhas criações. Além disso tudo, acredito que todas as minhas criações não dependem só de mim e do que me vai na cabeça ou no coração.

Muitas vezes, o barro também me guia, e o produto final é uma criação conjunta. A minha primeira menção será sempre Reinata Sadimba, não só pelo seu trabalho na cerâmica em termos de técnica e representação de temas que também muito me interessam, como a família, a sensualidade, tradições e ancestralidades, mas também pela figura e personalidade que ela própria é, uma mulher excêntrica, que desafia padrões e se expressa além de dicotomias restritivas.

Inspira-me imenso ver as pessoas que vêm às aulas descobrir um talento novo. Receber fotos dos itens criados no atelier a ganhar vida e utilidade nas vidas e casas das pessoas que os criaram. Saber que o pequeno anexo no fundo do meu quintal se transformou num espaço onde pessoas podem reconectar-se com um lado criativo que estava adormecido ou era até mesmo desconhecido. Presenciar o despertar da criatividade. Acho que essas tem sido as experiências mais significativas, porque eu também conheço a magia do barro, então é sempre um prazer poder partilhar esses momentos com outras pessoas.

O acesso a esta actividade é um dos maiores desafios ao crescimento da cerâmica. Apesar de ser uma prática relativamente simples (de forma muito simplificada, para a cerâmica artesanal, que é a praticada no meu atelier, só se precisa de água, terra e um forno a lenha), poucos são ainda os espaços onde se pode estar em contacto com a cerâmica. Espero que quanto mais pessoas possam ter acesso e entender a dinâmica desta manifestação, mais atelieres possam brotar na cidade e mais diversa seja a expressão da cerâmica em Moçambique. E que mais mulheres se possam juntar!

Para além da cerâmica, eu gosto muito de explorar o audiovisual e a escrita. Ainda sou um pouco crítica do que faço através desses outros meios, mas a expressão através da cerâmica tem-me ajudado a estar um pouco mais atrevida. Também gosto de usar desenhos e pinturas para facilitar conversas e reflexões em grupos sobre o corpo e a sexualidade, principalmente entre mulheres e pessoas que não se encaixem nos padrões de expressão sexual ditados pela sociedade.

Para o futuro, quero que o meu atelier cresça, e possa contribuir cada vez mais para a valorização e acessibilidade da arte em Moçambique. Tenho interesse em expandir as aulas de cerâmica para outros públicos, trabalhar com a produção de eventos culturais, expandir o uso da arte para actividades que exploram a relação com o corpo e a sexualidade e promover encontros e reflexões sobre cultura e arte. Para mais informações, Instagram: @kappausse