Num gesto solidário motivado por laços bilaterais e uma preocupação humanitária evidente, o Japão anunciou, esta quinta-feira, o envio imediato de ajuda de emergência a Moçambique. A acção surge em resposta às devastadoras cheias que, em menos de três semanas, já afectaram mais de 650 mil pessoas em diversas regiões do país.

Segundo um comunicado do Ministério dos Negócios Estrangeiros japonês, o auxílio responde directamente a um pedido formal do Governo moçambicano. Através da Agência de Cooperação Internacional do Japão (JICA), serão fornecidos bens essenciais, incluindo tendas, cobertores, tanques de plástico, purificadores de água e lonas.

“Tendo em conta a perspectiva humanitária e as estreitas relações entre o Japão e Moçambique, o Japão decidiu prestar assistência de emergência à República de Moçambique para apoiar as pessoas afectadas pelas fortes chuvas”, pode ler-se na nota oficial.

A dimensão da crise é dramática: de acordo com dados actualizados do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD), as cheias já atingiram 652.189 pessoas, o que corresponde a mais de 141 mil famílias. Foram registadas 3.445 casas parcialmente destruídas, 767 completamente arrasadas e 153.417 inundadas.

O impacto alastrou-se ainda ao sector da saúde e da educação, com 229 unidades sanitárias e 364 escolas danificadas, além de três pontes e 1.336 quilómetros de estrada afectados. A dimensão da catástrofe levou à activação de 99 centros de acomodação, que albergam quase 100 mil pessoas, entre as quais mais de 19 mil foram resgatadas de zonas de risco.

Os números totais desde o início da época chuvosa, em Outubro, são ainda mais alarmantes: 131 mortes, 144 feridos e 779.528 pessoas afectadas. O Governo decretou o alerta vermelho nacional a 16 de Janeiro, quando os óbitos somavam 103 e os afectados totalizavam 173 mil.

A agricultura também sofreu um duro golpe, com 285.720 hectares de terra produtiva submersos e 325.578 cabeças de gado perdidas. Estima-se que 214.046 agricultores estejam em situação crítica devido à perda de meios de subsistência.

No terreno, continuam hoje as operações de salvamento. Centenas de famílias permanecem sitiadas, algumas sobre telhados, especialmente nas províncias de Maputo e Gaza, no sul do país. A situação agravou-se com descargas forçadas de barragens, tanto em Moçambique como nos países vizinhos, devido à incapacidade de retenção das infra-estruturas hidráulicas.

Mais de uma dezena de meios aéreos, incluindo helicópteros sul-africanos, bem como embarcações privadas e da Marinha de Guerra, têm sido mobilizados para as operações de resgate.

As vias de comunicação estão severamente comprometidas: a Estrada Nacional 1, que liga o norte ao sul do país, e a Nacional 2, que dá acesso a Gaza, continuam intransitáveis, cortadas pela fúria das águas.