Depois de dois anos marcados por uma seca severa, a Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB) chegou ao final do primeiro semestre de 2026 com dois indicadores a avançarem na mesma direcção: produziu mais electricidade e, ao mesmo tempo, recuperou as reservas de água da albufeira. A combinação reforça a margem operacional da central e a sua capacidade de fornecimento aos mercados de Moçambique e da África Austral.
À primeira vista, é a produção que sobressai. Entre Janeiro e Junho, a HCB gerou 6399,03 gigawatts-hora (GWh) de energia, um crescimento de 13% face ao período homólogo de 2025 e um desempenho cerca de 10% superior à meta estabelecida para o semestre.
Mas o dado que ajuda a compreender melhor o momento da empresa está na própria albufeira.
Enquanto as turbinas produziam acima do previsto, o armazenamento útil recuperou de cerca de 20% em Janeiro para 56% no final de Junho. Ou seja, a HCB conseguiu aumentar a geração de electricidade sem consumir a recuperação das suas reservas hídricas. Pelo contrário: a água disponível para produção também aumentou.
Na prática, cresceram simultaneamente a produção e o recurso que sustenta essa produção. Depois de um período de forte pressão hidrológica, esta conjugação representa uma mudança relevante para a operação da central. Segundo a empresa, o desempenho traduz uma gestão equilibrada entre a exploração do recurso hídrico e a sua conservação, numa região afectada nos últimos anos por uma das secas mais severas da sua história recente.
A água que pode virar electricidade
O armazenamento útil é um dos indicadores centrais para avaliar a capacidade operacional de uma barragem hidroeléctrica. Corresponde à parcela de água efectivamente disponível para passar pelas turbinas e ser convertida em electricidade. Distingue-se, assim, do chamado armazenamento morto, constituído pela água situada abaixo do nível em que pode ser captada para geração.
A subida de cerca de 20% para 56% significa uma recuperação de 36 pontos percentuais ao longo do semestre. Favorecidas pela melhoria das condições hidrológicas na bacia do Zambeze, as entradas de água na albufeira permitiram recompor as reservas mesmo num período em que a produção eléctrica aumentou.
A recuperação das reservas dá à HCB maior margem para atravessar o período seco, reduzir limitações à produção e responder à procura de electricidade em Moçambique e nos mercados de exportação.
É precisamente essa margem que ganha importância nos meses seguintes. Uma albufeira mais abastecida reduz a pressão sobre a gestão da água disponível e melhora a capacidade de resposta da central perante variações da procura, tanto no mercado nacional como nos destinos externos da energia produzida em Cahora Bassa.
O desempenho operacional reflectiu-se igualmente nas contas. Dados ainda sujeitos a auditoria apontam para receitas de aproximadamente 263 milhões de dólares e um resultado líquido superior a 115 milhões de dólares no primeiro semestre.
Acções atingem máximo de três meticais
A evolução da empresa teve também expressão no mercado de capitais. Durante o semestre, as acções da HCB atingiram uma cotação máxima de três meticais na Bolsa de Valores de Moçambique (BVM).
No mesmo período, foram transaccionados 27 538 315 títulos da empresa, correspondentes a um volume financeiro de cerca de 80,5 milhões de meticais.
Apesar dos níveis relativamente reduzidos de liquidez que caracterizam o mercado bolsista moçambicano, a HCB mantém-se entre as empresas de referência da BVM. Para além dos resultados do semestre, a companhia apresenta um historial de geração de lucros e distribuição de dividendos que integra o contexto da negociação das suas acções.
Um fornecedor estratégico para a região
A importância da recuperação hídrica de Cahora Bassa não termina nas fronteiras de Moçambique.
Com uma capacidade instalada de 2075 megawatts (MW), a HCB é um dos grandes produtores de electricidade da África Austral e abastece três mercados principais: Moçambique, África do Sul e Zimbabué. A empresa realiza ainda vendas ocasionais através do Southern African Power Pool (SAPP), o mercado regional que permite transacções de electricidade entre países da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC).
Nos contratos de potência firme, a África do Sul continua a representar o principal destino, absorvendo cerca de 66% da capacidade contratada. Moçambique representa aproximadamente 30% e o Zimbabué os restantes 4%.
Em conjunto, esses contratos correspondem a uma potência firme de cerca de 1450 MW. O fornecimento é assegurado através da operação contínua de quatro dos cinco grupos geradores da central, enquanto o quinto permanece em reserva, contribuindo para a fiabilidade da operação.
É por isso que a subida do nível de armazenamento tem uma dimensão que ultrapassa o desempenho semestral da empresa. Cada ponto recuperado na albufeira amplia a margem de gestão de um recurso do qual depende não apenas a produção da central, mas também uma parcela do fornecimento eléctrico regional.
Depois de dois anos de seca severa, os números dos primeiros seis meses de 2026 mostram, sobretudo, a recuperação do activo que está na origem de toda a cadeia de valor da HCB: a água.
Com 56% de armazenamento útil no final de Junho e uma produção 13% superior à registada no mesmo período de 2025, Cahora Bassa entrou na segunda metade do ano com reservas mais robustas. A evolução das condições hidrológicas determinará até que ponto essa margem poderá ser preservada, mas o primeiro semestre deixou uma mudança clara no quadro operacional: enquanto produzia mais electricidade, a barragem voltou também a acumular a água necessária para continuar a produzi-la.
