Num sopé africano onde ciência e natureza se entrelaçam, as mais recentes investigações conduzidas no Parque Nacional da Gorongosa oferecem uma visão inédita sobre comportamento, ecologia e evolução de primatas, grandes herbívoros e morcegos. Trabalhos que atravessam disciplinas e exigem paciência de anos de campo, explorando desde a locomoção e uso de ferramentas, até às dinâmicas genéticas e comunicação animal.
Entre os destaques, surge o estudo sobre manipulação de objectos por babuínos chacma selvagens, revelando comportamentos criativos: desde abrir contentores de lixo para alcançar comida, até extrair seiva de árvores e usar ramos como demonstração de dominância. A frequência destes actos varia com a idade, o habitat e, possivelmente, a criatividade — um vislumbre das raízes do uso de ferramentas e do pensamento complexo.
Outro trabalho questiona a narrativa linear sobre a evolução da bipedalidade, sugerindo múltiplas origens e contextos para andar erecto. Fósseis, ecologia e comportamento actual dos primatas são combinados para entender como riscos e “paisagens de medo” terão incentivado alguns hominídeos a explorar o solo.
Os dados de GPS analisados por Lynn Lewis-Bevan mostram que os babuínos planeiam rotas diárias com uma lógica própria, equilibrando distância, eficiência e necessidades de paragem. Já o impacto do ciclone Idai de 2019 revelou a resiliência dos primatas da Gorongosa, que rapidamente retomaram comportamentos e populações estáveis.
Noutra vertente, observou-se que apenas alguns bandos de babuínos retiram a casca das “Acacia robusta” — um hábito regional que poderá ser um traço cultural, não uma simples resposta ao ambiente.
Na escala do ecossistema, um estudo premiado mostrou como fogo e grandes herbívoros interagem para moldar savanas tropicais, alterando rapidamente a composição de plantas e animais.
Do lado nocturno, Cesária Huó tenta decifrar a “língua” dos morcegos, recolhendo e analisando vocalizações para perceber como estas evoluem.
No campo da genética, investigações apontam para elevada diversidade e conectividade populacional entre babuínos da Gorongosa, com machos a dispersarem-se entre grupos. E um estudo recente expôs uma história de hibridação entre babuínos chacma, amarelos e até kinda, posicionando Moçambique como ponto-chave na evolução de primatas africanos.
Da biologia comportamental à genética, estas descobertas não só enriquecem o conhecimento científico, como reforçam a Gorongosa como um laboratório vivo para compreender a vida selvagem e a história evolutiva que partilhamos com ela.
