Um novo estudo internacional publicado no Journal of Medical Virology revela uma possível explicação para os sintomas que continuam a afectar milhares de pessoas mesmo após a fase aguda da COVID-19. A investigação detectou, no sangue desses indivíduos, microcoágulos associados a inflamação crónica, o que poderá justificar o cansaço extremo, a dor muscular, as dificuldades respiratórias e outros efeitos prolongados da infecção.

A pesquisa, publicada na Journal of Medical Virology, analisou amostras de plasma de 50 doentes com sintomas persistentes da COVID-19 e 38 pessoas saudáveis, oriundas da África do Sul e de França. Utilizando técnicas avançadas de citometria de imagem e microscopia de fluorescência, os cientistas identificaram quantidades significativamente mais elevadas de microcoágulos e marcadores de inflamação em quem apresentava queixas semanas ou meses após a recuperação da infecção.

Estes microcoágulos — pequenos aglomerados de proteínas amiloides resistentes à degradação natural — foram encontrados em maior número e dimensão nas amostras dos doentes sintomáticos. Além disso, estavam fortemente associados a estruturas libertadas por células do sistema imunitário, conhecidas como armadilhas extracelulares de neutrófilos (NETs), que agravam os processos inflamatórios e podem obstruir os vasos sanguíneos.

Os investigadores também confirmaram a presença de mieloperoxidase (MPO), elastase de neutrófilos (NE) e DNA circulante, três marcadores associados à activação imunitária e à formação destas armadilhas. Quando estes elementos se encontram em níveis elevados, sugerem um estado inflamatório persistente no organismo.

Utilizando algoritmos de aprendizagem automática, como o Random Forest, a equipa demonstrou que a combinação entre o número de microcoágulos e os níveis de MPO permite distinguir com elevada precisão os indivíduos afectados por sintomas pós-COVID. O modelo atingiu 91% de precisão e 86% de sensibilidade, o que pode abrir caminho para novos testes de diagnóstico.

Apesar destes resultados promissores, os autores alertam que é necessário realizar estudos adicionais com doentes de outras condições inflamatórias — como diabetes ou lúpus — para confirmar a especificidade destes marcadores na COVID-19 pós-aguda.

Segundo os cientistas, a persistência destes microcoágulos no sangue, associados a inflamação contínua, pode estar a impedir uma recuperação total, afectando sobretudo a circulação nos pequenos vasos sanguíneos. Este fenómeno pode levar a défices de oxigenação e agravamento de sintomas ao longo do tempo, mesmo na ausência do vírus activo.

A investigação, conduzida em colaboração entre a Universidade de Stellenbosch (África do Sul) e o Instituto INSERM (França), representa um avanço no conhecimento sobre as sequelas da COVID-19 e aponta para novos caminhos na sua detecção e tratamento.

Leia mais sobre o estudo em https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/jmv.70613