Por vezes, o cinema não serve apenas para entreter. Serve para pensar, para devolver dignidade, para mexer com a história. Dahomey, filme de 2024 realizado por Mati Diop, é um desses raros momentos em que a arte encontra o seu propósito mais profundo: o de curar feridas abertas com imagens, sons e ideias.
Premiado com o Urso de Ouro no Festival de Berlim, Dahomey acompanha o simbólico regresso ao Benim de 26 obras-primas saqueadas pela França em 1892, durante a invasão do antigo Reino do Daomé. Estas peças de arte africana, até então expostas no Museu do Quai Branly em Paris, foram finalmente repatriadas em 2021 – um acto que gerou debate, esperança e também desconforto. Diop constrói um documentário de grande densidade poética e política, dando voz a uma estátua do Rei Ghezo que narra o regresso das obras saqueadas ao Benim. Através da melancólica narração de Makenzy Orcel, a peça torna-se protagonista de uma travessia simbólica, que culmina num debate aceso entre estudantes universitários sobre o alcance e os limites da restituição patrimonial. Enriquecido por uma fotografia sensível e por uma banda sonora subtil, afirma-se como uma obra tecnicamente apurada e intelectualmente provocadora.
Integrou o Top 5 de documentários do ano do National Board of Review e foi exibido em diversos festivais de renome, como o Cinéma du Réel (Paris), TIFF, San Sebastián, Londres, Sydney, Nova Iorque e Tóquio. Representou o Senegal na corrida aos Óscares. A crítica internacional foi amplamente favorável, com elogios do The Guardian à sua abordagem “poética e corajosa”, e do Financial Times, que o descreveu como uma “meditação serena sobre o retorno das obras saqueadas”. No Rotten Tomatoes obteve 99 % de aprovação, e 85 em 100 no Metacritic.
Este documentário, disponível na plataforma MUBI, é uma experiência sensorial, intelectual e emocional. Inquieta, ilumina e convida à reflexão sobre o passado colonial e, sobretudo, sobre o futuro que os africanos aspiram construir com voz própria, memória recuperada e dignidade restaurada.
