Numa sequência de eventos que abalou o panorama político português, a residência oficial do Primeiro-Ministro António Costa foi alvo de buscas pela Polícia de Segurança Pública (PSP) no âmbito de uma investigação sobre negócios do lítio em Montalegre. As diligências estenderam-se aos Ministérios do Ambiente e das Infra-estruturas, culminando na detenção de figuras próximas ao líder do executivo, incluindo o seu chefe de gabinete, Vítor Escária, e o consultor Diogo Lacerda Machado.

A operação, que teve lugar na manhã de ontem, desencadeou uma série de acontecimentos que, até ao fechar da tarde, resultaram na demissão de António Costa do cargo de Primeiro-Ministro. Costa, confrontado com a gravidade das acusações e a iminência de um processo-crime, optou por renunciar ao seu posto, sublinhando a incompatibilidade da dignidade das suas funções com a suspeita de qualquer acto criminal.

A investigação, que já em Janeiro deste ano havia sido confirmada pela Procuradoria-Geral da República, incide sobre suspeitas de tráfico de influências e corrupção, relacionadas com a atribuição de contratos para a exploração de lítio e o projecto do hidrogénio verde. Estes contratos envolveram empresas de renome como a EDP, Galp e REN, e levantaram questões sobre a rapidez com que a Lusorecursos Portugal Lithium obteve a concessão para a exploração de lítio, apenas três dias antes da assinatura do contrato com o Estado.

A situação agravou-se com a revelação de que António Costa havia sido interceptado em escutas telefónicas, discutindo o negócio do lítio e do hidrogénio verde com João Pedro Matos Fernandes, então Ministro do Ambiente. Estas conversas, que também envolveram outros membros do Governo sob escuta, como João Galamba e Pedro Siza Vieira, foram interpretadas como potencialmente comprometedoras.

Face à pressão e ao clima de suspeição, Costa dirigiu-se ao país, afirmando não ter conhecimento exacto das acusações, mas reiterando a sua disponibilidade para colaborar com a Justiça. A sua demissão foi prontamente aceite pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que deverá agora ponderar os próximos passos políticos do país. O líder demissionário, que afirmou não se recandidatará ao cargo, agradeceu aos portugueses pela confiança depositada durante o seu mandato, encerrando a sua etapa como Primeiro-Ministro com a "cabeça erguida" e a "consciência tranquila".

A Procuradoria-Geral da República anunciou que Costa será alvo de uma investigação autónoma pelo Supremo Tribunal da Justiça, dada a sua posição enquanto alta figura do Estado. Entretanto, o Ministro das Infra-estruturas, João Galamba, foi constituído arguido, juntamente com outras figuras de relevo, num processo que promete continuar a gerar desenvolvimentos significativos nos próximos tempos.