Enquanto a Igreja Católica se despede do Papa Francisco, falecido na segunda-feira aos 88 anos, começa a delinear-se um novo capítulo, com murmúrios discretos mas carregados de significado. Segundo um artigo publicado pela Reuters, em África — onde a fé é uma presença viva nas esferas pública e privada — cresce a esperança de que, pela primeira vez na história moderna, um papa negro possa ser eleito. Uma possibilidade que, embora remota, ressoa profundamente entre milhões de fiéis num continente onde o catolicismo não só cresce, como floresce.

Segundo dados recentemente divulgados pelo Vaticano, África é hoje a região onde o catolicismo regista o crescimento mais acelerado. Em 2023, o continente já representava cerca de 20% dos católicos do mundo, com nove milhões de novos fiéis registados só nesse ano.

Na Costa do Marfim, o padre Charles Yapi, em Abidjan, traduz esse anseio: “Ter um papa negro revitalizaria a fé cristã em África e mudaria a percepção global sobre o nosso continente. Seria a prova de que um africano pode ocupar o cargo mais alto da Igreja.”

Apesar de registos históricos pouco detalhados indicarem que alguns papas dos primeiros séculos poderão ter tido origem norte-africana ou mesmo ascendência africana, ainda não houve um papa negro reconhecido na era contemporânea.

Alguns nomes africanos têm surgido entre os favoritos discretos ao papado. Contudo, segundo fontes internas do Vaticano, o escrutínio público e eclesiástico enfrentado pelos cardeais africanos é incomparavelmente inferior ao dos seus pares ocidentais – um entrave num processo tão político quanto espiritual. Ainda assim, a escolha do próximo pontífice é frequentemente imprevisível.

Entre os nomes mais comentados destacam-se o cardeal ganês Peter Kodwo Appiah Turkson, de 76 anos; o cardeal congolês Fridolin Ambongo Besungu, de 65, arcebispo de Kinshasa; e o cardeal marfinense Ignace Bessi Dogbo, de 63, recentemente elevado ao cardinalato em Dezembro de 2024.

Para o arcebispo John Bonaventure Kwofie, em Acra, que conhece Turkson desde os anos 70 e foi por ele ordenado bispo, a eventual eleição do compatriota seria uma recompensa simbólica para o dinamismo católico africano. “Embora não se trate de uma aposta, pois os cardeais serão guiados pelo Espírito Santo, seria uma motivação enorme para os bispos africanos.”

Mas nem todos os clérigos partilham dessa visão de representatividade. O padre congolês Josue-Misael Mobatila Kwilu resume o sentimento de muitos: “Rogamos para que o Espírito Santo nos conceda um bom pastor, não importa de onde venha.”

Ainda assim, a nomeação de um papa africano seria lida por muitos como uma continuação do legado de Francisco, defensor dos marginalizados, dos migrantes e dos povos em sofrimento. Recorda-se, por exemplo, o apelo feito por Francisco em Kinshasa, em 2023: “Tirem as mãos da República Democrática do Congo. Tirem as mãos de África! Parem de sufocar África: não é uma mina para ser explorada, nem uma terra para ser saqueada.”

Palavras que, nas palavras do Presidente Félix Tshisekedi, “ficarão para sempre gravadas na memória colectiva do povo congolês”.

Contudo, se a eleição de um papa africano simbolizaria uma mudança, o seu posicionamento em questões sociais poderia revelar divergências face à agenda de Francisco – particularmente no que toca à bênção de casais do mesmo sexo, recentemente aprovada de forma condicionada pelo Vaticano. O conservadorismo cultural africano pode não permitir que um eventual papa do continente siga esses passos.

O cardeal Turkson, embora alinhado com Francisco em temas como justiça social e mudanças climáticas, gerou controvérsia em 2013 ao associar casos de abuso clerical à homossexualidade. Mais recentemente, suavizou o discurso, dizendo à BBC, em 2023, que era “tempo de iniciar a educação” sobre o tema, admitindo que a homossexualidade “não é completamente alheia à sociedade ganesa”.

Ambongo, por seu lado, é uma voz firme pela paz no Congo, mas opôs-se às bênçãos a casais do mesmo sexo, temendo que expusessem a Igreja a escândalos. Já Dogbo, da Costa do Marfim, defende que o aumento da representação africana traduz a verdadeira universalidade da Igreja.

Num momento de luto, a Igreja enfrenta também a possibilidade de transformação. E enquanto os fiéis enchem igrejas para rezar por Francisco, uma esperança silenciosa percorre África: a de que chegou o tempo de Roma falar com uma voz de África.