Água Profunda: A Descoberta

De acordo com a revista científica Nature, uma equipe internacional de cientistas, sob a liderança de Graham Pearson da Universidade de Alberta, identificou a existência de uma vasta reserva de água aprisionada no mineral ringwoodite, situada a aproximadamente 700 km de profundidade na denominada “zona de transição” do manto terrestre. Esta descoberta, realizada a partir da análise de um diamante extraído de rochas vulcânicas profundas no Brasil, indica que essa zona pode conter água em um volume comparável ao dos oceanos superficiais, apresentando novas perspectivas sobre a origem da água no planeta.

O Papel da Ringwoodite na Retenção de Água

A ringwoodite, um mineral que se forma exclusivamente sob as elevadas pressões presentes no manto terrestre, desempenha um papel crucial nesta descoberta. Este mineral raro, dotado de uma estrutura cristalina que permite a retenção de moléculas de água, actua de forma análoga a uma esponja, absorvendo até 1,5% de água em massa. Tal característica permite à ringwoodite acumular grandes quantidades de água que, devido às extremas pressões e profundidades, permanecem aprisionadas no estado sólido ou em rochas saturadas.

A primeira amostra de ringwoodite foi colectada por Pearson e sua equipe em 2008, na região do Mato Grosso, Brasil, e o estudo detalhado dessa amostra levou anos até ser publicado. As análises indicam a presença de regiões altamente hidratadas entre 410 e 660 km abaixo da crosta terrestre, corroborando a existência de um ciclo de armazenamento hídrico em profundidade.

Técnicas para Identificação do "Oceano" Subterrâneo

Para identificar a presença deste “oceano” subterrâneo, os pesquisadores utilizaram sismógrafos para rastrear as ondas sísmicas geradas por mais de 500 terramotos. Ao atravessarem zonas enriquecidas com água, essas ondas desaceleram, criando anomalias sísmicas que sugerem a presença de rochas altamente saturadas. Este método permitiu que cientistas, incluindo o geofísico Steve Jacobsen, mapearam e confirmaram a existência de um ciclo hídrico interno na Terra, que até então era apenas uma hipótese teórica.

Implicações para as Teorias sobre a Origem da Água

Esta descoberta desafia a teoria amplamente aceita de que a água da Terra chegou exclusivamente através de cometas e meteoritos durante o período de formação planetária. Em contrapartida, reforça a hipótese de que os oceanos possam ter emergido do interior do planeta, sugerindo que a água da superfície teria sido gradualmente expelida por meio de processos tectónicos e vulcânicos ao longo das eras geológicas. Este ciclo hídrico interno tem implicações significativas para a compreensão da tectónica de placas e da dinâmica interna do planeta, afectando a forma como visualizamos os processos de reciclagem de água no manto.

Impacto Científico e Perspectivas Futuras

A presença de água em tais profundezas implica a existência de um ciclo hídrico até então inexplorado e levanta novas possibilidades para a pesquisa geológica e para a astrobiologia. A descoberta de um reservatório de água subterrânea de grandes proporções abre perspectivas não apenas para a compreensão da dinâmica interna da Terra, mas também para a hipótese de que outros corpos celestes com características similares possam conter reservas de água em suas camadas profundas. Esta evidência reforça a ideia de que a água desempenha um papel fundamental na dinâmica geológica da Terra, influenciando processos como vulcanismo e movimentação das placas tectónicas, além de oferecer novos caminhos para a exploração de potenciais reservatórios hídricos em outros planetas.

Este estudo, publicado em fontes reputadas como Nature, New Scientist e Earth.com, constitui um avanço significativo na compreensão dos processos geológicos internos, desafiando e ampliando o conhecimento actual sobre os ciclos de água e as reservas hídricas do nosso planeta.

O estudo sobre o "oceano subterrâneo" de água aprisionada no manto terrestre, liderado pelo geólogo Graham Pearson e publicado na prestigiada revista Nature, representa um marco no conhecimento sobre a composição interna do planeta. Intitulado "Hydrous mantle transition zone indicated by ringwoodite included within diamond", o estudo foi publicado em 2014 (Nature, volume 507, páginas 221–224) e pode ser acedido através do DOI https://www.nature.com/articles/nature13080