Centenas de espécies até agora desconhecidas da ciência foram identificadas num mundo oculto a quase quatro mil metros de profundidade no Oceano Pacífico, numa das mais completas investigações alguma vez realizadas sobre os ecossistemas do fundo do mar. O estudo surge num momento em que a procura global por metais críticos acelera e a mineração em águas profundas deixa de ser apenas um cenário teórico para se aproximar da realidade.
Ao longo de cinco anos e após 160 dias passados em alto-mar, uma equipa internacional de cientistas documentou perto de 800 espécies na zona abissal do Pacífico, muitas delas nunca antes descritas. Os resultados mostram que testes de mineração reduziram de forma significativa a abundância de animais e a diversidade de espécies nas áreas directamente afectadas, embora o impacto global tenha sido inferior ao que inicialmente se temia.
A crescente necessidade de metais essenciais para a transição energética tem levado vários países a considerar a exploração do fundo do mar. É neste contexto que surge este trabalho científico, que conclui que, apesar de danos locais evidentes, a mineração profunda poderá ter efeitos mais limitados à escala regional do que as previsões mais pessimistas apontavam. Ainda assim, nas zonas atravessadas por maquinaria de extracção, a diversidade biológica caiu cerca de um terço.
Uma das maiores surpresas do estudo foi a descoberta de centenas de espécies desconhecidas a viverem num ambiente extremo, sublinhando o quão pouco se conhece sobre estes ecossistemas remotos e frágeis.
Um dos ecossistemas menos conhecidos do planeta
Biólogos marinhos de vários países uniram esforços para estudar o fundo do Pacífico, uma das regiões menos exploradas da Terra. A investigação, publicada na revista Nature Ecology and Evolution, foi motivada também pelo crescente interesse comercial e geopolítico na área.
“Os metais críticos são indispensáveis para a transição verde e estão em escassez. Muitos deles existem em grandes quantidades no fundo do mar profundo, mas até agora ninguém tinha demonstrado como podem ser extraídos nem quais seriam os impactos ambientais”, explica Thomas Dahlgren, biólogo marinho que participou no projecto juntamente com Helena Wiklund, ambos da Universidade de Gotemburgo.
Cinco anos de trabalho e 160 dias no mar
O projecto seguiu as directrizes da International Seabed Authority para estudos de referência ambiental e avaliação de impactos. Durante cinco anos, os investigadores catalogaram a vida marinha e testaram os efeitos da mineração na Clarion-Clipperton Zone, uma vasta região do Pacífico situada entre o México e o Havai.
Os dados revelam que as áreas directamente perturbadas pela maquinaria registaram uma redução de 37% no número de animais e uma quebra de 32% na diversidade de espécies.
“Este trabalho exigiu 160 dias no mar e cinco anos de investigação. Os resultados serão fundamentais para a International Seabed Authority, que regula a mineração de minerais em águas internacionais”, sublinha Thomas Dahlgren.
Vida a quatro mil metros de profundidade
A zona estudada encontra-se a cerca de 4.000 metros abaixo da superfície, onde a luz solar não chega e o alimento é escasso. Aqui, o sedimento cresce a um ritmo extremamente lento: apenas um milésimo de milímetro por ano.
Para comparação, uma única amostra do fundo do Mar do Norte pode conter até 20 mil animais. No fundo do Pacífico profundo, uma amostra semelhante apresenta um número comparável de espécies, mas apenas cerca de 200 indivíduos.
No total, foram recolhidos 4.350 animais com mais de 0,3 milímetros, vivendo no sedimento ou à sua superfície. A partir dessas amostras, foram identificadas 788 espécies, sobretudo vermes poliquetas, crustáceos e moluscos, como caracóis e mexilhões. A equipa identificou ainda um novo coral solitário, descrito num estudo paralelo.
Espécies desconhecidas e riscos a longo prazo
“Trabalho na Clarion-Clipperton Zone há mais de 13 anos e este é, de longe, o maior estudo alguma vez realizado. Em Gotemburgo, liderámos a identificação dos vermes poliquetas. Como a maioria das espécies nunca tinha sido descrita, os dados moleculares de ADN foram essenciais para estudar a biodiversidade e a ecologia do fundo do mar”, explica Dahlgren.
Ao longo do inventário, os cientistas observaram que as comunidades de águas profundas mudam naturalmente ao longo do tempo, provavelmente em resposta à quantidade de alimento que chega ao fundo oceânico. No entanto, permanece desconhecido até que ponto estas espécies estão distribuídas noutras regiões profundas do Pacífico.
“É agora crucial tentar prever o risco de perda de biodiversidade resultante da mineração. Para isso, precisamos de investigar a biodiversidade dos 30% da Clarion-Clipperton Zone que estão protegidos. Neste momento, praticamente não sabemos o que vive nessas áreas”, alerta Adrian Glover, autor sénior do estudo e investigador do Natural History Museum.
O trabalho deixa claro que, antes de qualquer avanço definitivo rumo à mineração em grande escala, o conhecimento científico sobre estes ecossistemas terá de ser aprofundado — sob pena de se perder um património biológico ainda invisível aos olhos do mundo.
