O Parque Nacional da Gorongosa abriu um novo capítulo na história da conservação em Moçambique. O Laboratório de Biodiversidade E.O. Wilson anunciou, esta terça-feira, uma mudança histórica na sua liderança: o Dr. Piotr Naskrecki deixa a direcção do laboratório, passando o cargo para o cientista moçambicano Dr. Jacinto Adriano Mathe, numa transição que simboliza o reforço da aposta na liderança local e na formação de quadros nacionais.

A decisão marca o culminar de um percurso iniciado há exactamente uma década. Foi em 2016 que Jacinto Mathe entrou pela primeira vez no Laboratório de Biodiversidade E.O. Wilson como jovem investigador associado, tendo Piotr Naskrecki como primeiro mentor. Dez anos depois, regressa ao mesmo espaço como director, depois de concluir recentemente o doutoramento em Biologia Antropológica pela Universidade de Oxford, no Reino Unido.

Entomologista e conservacionista de reconhecimento internacional, Piotr Naskrecki continuará ligado à Gorongosa na qualidade de consultor, ao mesmo tempo que expande o seu trabalho em iniciativas globais de investigação e conservação da biodiversidade.

Durante o período em que liderou o laboratório, Naskrecki transformou a instituição num dos centros científicos mais dinâmicos e produtivos entre os parques nacionais africanos. Sob a sua orientação, o laboratório consolidou-se como referência internacional na investigação em biodiversidade, acolhendo cientistas de vários continentes e aprofundando o conhecimento sobre os ecossistemas da Gorongosa — desde os insectos e plantas até aos grandes mamíferos.

Entre os marcos mais relevantes do seu percurso destaca-se a cofundação do Programa de Bioeducação da Gorongosa, iniciativa considerada inovadora por combinar formação científica prática com capacitação de estudantes moçambicanos. O projecto acabaria por dar origem ao primeiro mestrado em ciências realizado integralmente dentro de uma área protegida, colocando o consórcio académico da Gorongosa entre os exemplos globais mais relevantes na educação para a conservação.

Os resultados acumulados ao longo destes anos redefiniram o conhecimento científico sobre a biodiversidade do Parque. A equipa do laboratório registou e mapeou mais de 8.000 espécies de animais e plantas, num trabalho sem precedentes que conduziu à descoberta de mais de 100 espécies novas para a ciência e reforçou a compreensão internacional sobre os ecossistemas tropicais africanos.

Como reconhecimento pelo contributo considerado excepcional, a Gorongosa decidiu atribuir o nome “Coleção Naskrecki” à colecção científica de zoologia do laboratório.

A ascensão de Jacinto Mathe à liderança do laboratório é vista pela administração do Parque como um símbolo do sucesso de uma estratégia assente na formação local. Licenciado em Medicina Veterinária pela Universidade Eduardo Mondlane, em 2017, e mestre em Antropologia Forense pela Universidade de Coimbra, em 2020, Mathe mantém uma ligação contínua à Gorongosa desde os primeiros anos da sua carreira científica.

Depois da passagem inicial pelo Laboratório de Biodiversidade E.O. Wilson, integrou, em 2017, a equipa do Projecto Paleo-Primata, contribuindo para o avanço do conhecimento sobre a história evolutiva profunda de Moçambique.

A direcção do Parque considera que a sua nomeação representa não apenas uma conquista individual, mas também a materialização de um modelo de conservação que combina educação, ciência e desenvolvimento comunitário.

“Jacinto personifica o futuro da conservação em Moçambique”, afirmou Piotr Naskrecki. 

“A sua formação científica, o seu profundo conhecimento da Gorongosa e o seu compromisso com o país posicionam-no de forma ideal para contribuir de forma significativa para o próximo capítulo do Laboratório.”

A investigação científica continua a ser um dos pilares centrais da estratégia de restauração ecológica da Gorongosa. Inaugurado em Março de 2014, o Laboratório de Biodiversidade E.O. Wilson transformou o Parque num dos centros de investigação mais avançados da África Austral, atraindo cientistas de mais de setenta instituições nacionais e internacionais, incluindo universidades de Moçambique, Portugal, Reino Unido e Estados Unidos.

Além da produção científica, o laboratório mantém uma missão estratégica de formação de jovens moçambicanos provenientes das comunidades vizinhas do Parque e de escolas técnicas da região, apoiando financeiramente estudantes que seguem carreiras nas áreas de veterinária, ecologia e ciências laboratoriais.