Começaram como medicamentos destinados sobretudo ao controlo da diabetes e da obesidade. Agora, as chamadas “canetas emagrecedoras” estão a produzir efeitos que ultrapassam largamente a balança — e começam a chegar aos supermercados, restaurantes, bebidas alcoólicas, companhias aéreas e até ao debate mundial sobre desigualdade no acesso aos cuidados de saúde.
Medicamentos como o Wegovy, à base de semaglutida, e o Mounjaro, que contém tirzepatida, fazem parte de uma nova geração de terapias que actuam sobre mecanismos envolvidos na regulação do açúcar no sangue, do apetite e da sensação de saciedade. A procura disparou à medida que os resultados na redução do peso corporal se tornaram conhecidos.
A dimensão do fenómeno é proporcional ao problema que estes medicamentos procuram combater.
Mais de mil milhões de pessoas vivem actualmente com obesidade em todo o mundo e, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a doença esteve associada a cerca de 3,7 milhões de mortes em 2024. Sem uma resposta eficaz, a organização estima que o número de pessoas afectadas possa duplicar até 2030.
É neste cenário que os medicamentos da família GLP-1 começaram a alterar a forma como a obesidade é encarada. A OMS considera que estas terapias podem ser utilizadas no tratamento prolongado de adultos com obesidade, embora a recomendação seja condicional devido, entre outros factores, às dúvidas ainda existentes sobre os efeitos de longo prazo, aos elevados custos e às desigualdades de acesso.
Mas a transformação começa a ser sentida muito para além dos hospitais.
Nos Estados Unidos, uma investigação da Universidade Cornell encontrou alterações significativas nos hábitos de consumo das famílias depois do início destes tratamentos. Nos primeiros seis meses, os agregados familiares com pelo menos um utilizador de medicamentos GLP-1 reduziram, em média, 5,3% das despesas de supermercado. Entre as famílias de rendimentos mais elevados, a queda ultrapassou 8%.
Os produtos mais afectados também ajudam a perceber o que está a acontecer dentro do organismo.
A despesa com aperitivos salgados caiu cerca de 10%, enquanto doces, bolachas e outros alimentos densamente calóricos registaram igualmente reduções importantes. Nos restaurantes de serviço rápido, incluindo estabelecimentos de fast-food e cafés, os gastos diminuíram cerca de 8%.
Ou seja, medicamentos concebidos para actuar sobre mecanismos metabólicos estão também a começar a mexer nas decisões tomadas diante das prateleiras dos supermercados.
E os efeitos poderão não terminar na comida.
Há sinais científicos de que a semaglutida poderá influenciar o consumo de álcool. Um ensaio clínico publicado em 2025 encontrou redução do desejo de beber e da quantidade consumida por ocasião entre participantes tratados com doses baixas de semaglutida, embora nem todos os indicadores de consumo tenham diminuído.
Em 2026, um outro ensaio clínico, realizado com pessoas com obesidade e perturbação por consumo de álcool, reforçou essa possibilidade: os participantes tratados com semaglutida apresentaram uma redução significativamente maior dos dias de consumo excessivo de álcool do que aqueles que receberam placebo. Os investigadores, contudo, continuam a defender estudos de maior dimensão antes de estes medicamentos poderem ser considerados uma terapêutica estabelecida contra a dependência alcoólica.
A onda de transformação chegou até à aviação.
Uma análise da Jefferies calculou que, se a utilização generalizada destes medicamentos provocar uma redução de 10% no peso médio dos passageiros, as quatro maiores companhias aéreas norte-americanas poderão poupar até 580 milhões de dólares por ano em combustível.
A explicação é puramente física: passageiros mais leves significam aviões ligeiramente mais leves e, consequentemente, menor consumo de combustível. A estimativa aponta para uma redução de cerca de 1,5% nos custos de combustível das companhias analisadas.
Isso não significa, porém, que as passagens aéreas ficarão automaticamente mais baratas. Trata-se, por enquanto, de uma projecção económica sobre possíveis poupanças das transportadoras, e não de uma garantia de que estas serão transferidas para os passageiros.
Por detrás da euforia existe, entretanto, um lado muito mais preocupante.
A procura mundial destes medicamentos abriu espaço para falsificações, contrabando, venda através de canais informais e utilização sem acompanhamento médico. Em Julho de 2026, a OMS voltou a alertar para o crescimento da aquisição de agonistas GLP-1 através da Internet e de outras fontes não regulamentadas, muitas vezes por pessoas sem obesidade e sem indicação clínica.
O problema já assumiu dimensões consideráveis em alguns mercados.
No Brasil, por exemplo, as apreensões de medicamentos ilegais para emagrecimento passaram de 609 unidades em 2024 para mais de 60 mil em 2025, num mercado negro alimentado pelos preços elevados, pela procura crescente e pela dificuldade de acesso aos produtos legalmente aprovados.
A OMS já tinha detectado, desde 2022, um aumento de notificações de semaglutida falsificada em diferentes regiões do mundo. Em alguns produtos falsificados, a substância activa pode simplesmente não existir; noutros, podem surgir ingredientes diferentes dos anunciados, incluindo insulina, criando riscos imprevisíveis para os consumidores.
E é precisamente aqui que surge uma das maiores contradições desta revolução farmacológica.
Os medicamentos capazes de transformar o tratamento de uma doença que afecta mais de mil milhões de pessoas continuam longe do alcance de grande parte dessa população.
A própria OMS reconhece que a disponibilidade destas terapias é significativamente inferior nos países de rendimento baixo e médio. Mesmo com o aumento previsto da produção mundial, a organização estima que, até 2030, menos de 10% das pessoas que poderiam beneficiar dos medicamentos GLP-1 terão acesso a eles.
O risco é evidente: uma inovação criada para enfrentar uma epidemia mundial poderá, sem políticas de acesso e preços adequadas, aprofundar a distância entre quem pode pagar para tratar a obesidade e quem continuará praticamente sem alternativas.
É por isso que a OMS insiste que estas canetas não representam, sozinhas, uma solução para a obesidade. Alimentação saudável, actividade física, acompanhamento clínico e políticas públicas continuam a ser componentes fundamentais do tratamento e da prevenção.
Ainda assim, poucos medicamentos recentes produziram repercussões tão rapidamente em sectores aparentemente distantes entre si.
Da balança às compras de supermercado, do copo de álcool ao depósito de combustível de um avião, os efeitos económicos e sociais começam a tornar-se mensuráveis.
As chamadas canetas emagrecedoras já não estão apenas a mudar corpos.
Estão, pouco a pouco, a obrigar mercados, sistemas de saúde e governos a prepararem-se para um mundo em que o tratamento da obesidade poderá ter consequências muito maiores do que alguma vez se imaginou.
