Num avanço que desafia os actuais modelos de formação cósmica, uma equipa internacional de astrónomos, incluindo investigadores portugueses, identificou um buraco negro supermassivo no Universo primitivo que cresce a uma velocidade 2,4 vezes superior ao limite até agora considerado possível para este tipo de objectos. A descoberta, divulgada esta segunda-feira, 15 de Setembro, sugere que os primeiros mil milhões de anos do cosmos foram marcados por uma actividade significativamente mais intensa do que se supunha.
O estudo, agora publicado na revista The Astrophysical Journal Letters, contou com a participação de três investigadores do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (IA), entre os quais José Afonso, presidente da Sociedade Portuguesa de Astronomia e especialista em galáxias. O trabalho centra-se na observação do quasar RACS J0320-35, cuja luz nos chega de uma distância de 12,8 mil milhões de anos-luz, o que equivale a observá-lo apenas 920 milhões de anos após o Big Bang.
Este quasar alberga um buraco negro supermassivo com uma massa estimada em cerca de mil milhões de vezes a do Sol. Trata-se de um dos objectos mais extremos do cosmos: um núcleo galáctico activo que liberta enormes quantidades de energia à medida que a matéria gira e aquece ao redor do buraco negro, emitindo raios-X e luz visível. A observação foi realizada com o telescópio espacial Chandra, especializado em detecção de raios-X.
Para medir a taxa de crescimento do buraco negro — estimada entre 300 e 3000 massas solares por ano — os cientistas compararam os dados observacionais com modelos computacionais, identificando uma forte correspondência com cenários que ultrapassam o chamado limite de Eddington, o ponto teórico além do qual a pressão da radiação impediria a matéria de continuar a cair sobre o buraco negro.
"Os primeiros mil milhões de anos do Universo estão a revelar-se cada vez mais enigmáticos. Não só continuamos a descobrir estes buracos negros gigantescos, antes considerados impossíveis, mas também começamos a perceber que já nessa altura tinham propriedades extremas", afirmou José Afonso. Para o astrónomo, estas descobertas indicam que "a infância do Universo, quando surgiram as primeiras estrelas e galáxias, foi muito mais activa e complexa" do que os modelos actuais previam.
