Entre os dias 3 e 8 de Julho, Maputo acolheu a segunda edição da ArtinDev Week, um festival multisciplinar organizado pela plataforma de Desenvolvimento de economias criativas ArtinDev, fez da cultura um acto de cidadania activa. Sob a direcção de Lisandro Jordão e o lema “Criatividade com Impacto”, o evento voltou a demonstrar que a arte pode ser mais do que estética: pode ser ferramenta de transformação, provocação e construção de futuros. Durante seis dias, a cidade foi tomada por exibições cinematográficas, concertos, oficinas, exposições e rodas de conversa que juntaram mais de 10 painelistas, oradores e artistas locais e internacionais, que atraíram centenas de visitantes desde adultos a crianças, de centros culturais a escolas, em torno de um objectivo comum: impulsionar os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e os Direitos Humanos, através da criação artística.

Arte como linguagem de intervenção
A programação da ArtinDev Week foi cuidadosamente desenhada para responder a temas prementes da sociedade moçambicana e global. Da saúde mental à igualdade de género, da justiça à acção climática, o festival posicionou-se como uma plataforma de advocacia criativa, onde cada forma de expressão carregava intenções profundas. Entre os eixos mais marcantes, o cinema assumiu papel central com sessões temáticas de “cinema de impacto”, projectadas em parceria com a Netkanema. No Instituto Camões, o festival arrancou com curtas de jovens estudantes da Universidade Lusófona, abordando a juventude como agente criador e sujeito de direitos. Já na Casa Velha, os dias seguintes trouxeram filmes como Vândalos, 18 de Março ou Cliché, que abordaram desde a coesão social até à identidade LGBTQIA+ e aos direitos das pessoas com deficiência. A fechar, a Embaixada dos Países Baixos acolheu os debates ArtinDev Exchange, com documentários que cruzaram geografias e linguagens — como o botswanês Baratani: A Colina dos Amantes comentado pela Produtora Tricia Sello ou o moçambicano Silêncio Quebrado, comentado pela jornalista Nair Bastos.

Música, moda e educação: a arte como construção de sentidos
Na vertente musical, dois concertos na Casa Velha deram voz a causas urgentes. A fusão sonora e ancestral de May Mbira envolveu o público numa celebração da identidade cultural, enquanto Denilson L.A trouxe para o palco e à consciência do público o impacto nocivo das relações amorosas mal resolvidas na saúde mental da juventude, num espectáculo de empatia e libertação. Já a ArtinDev Academy, componente formativa da plataforma, destacou-se como espaço de capacitação para jovens criadores. A produtora brasileira Ana Camila Esteves orientou uma masterclass sobre a presença africana em festivais internacionais de cinema. Do lado de Moçambique Lenna Bahule e Ivandro Maocha abriram as portas dos bastidores da composição musical. E Louiggi Junior, num exercício entre a moda e o cinema, mostrou como o figurino contribui para o desenho simbólico dos personagens, numa masterclass realizada no Orange Corners Maputo.

Escuta, debate e compromisso
O festival não se limitou à fruição passiva. As rodas de conversa trouxeram à superfície temas delicados, como a violência sexual infantil — num exercício de escuta conduzido por Nair Bastos após a exibição de Silêncio Quebrado. Em colaboração com a incubadora CRIARTE, discutiu-se ainda o papel da educação na inserção de mulheres em profissões tradicionalmente masculinas, numa conversa franca com Carla Seleça e Adelaide Machele. A dimensão visual também teve o seu lugar de destaque. A exposição Green Art Can Make a Change, do artista Chaná de Sá, combinou resíduos com criação plástica para questionar o nosso papel na crise ambiental. E o Gift Tattoo Studio desafiou o corpo como tela de afirmação, oferecendo tatuagens com mensagens associadas à sustentabilidade e aos direitos humanos.

Um palco colectivo para o futuro
A ArtinDev Week 2025 foi produzida pela Nuprattu, com co-produção da Netkanema e da CRIARTE, e apoio institucional da organização internacional Movies That Matter, Instituto Camões e Embaixada dos Países Baixos. O festival encerrou reafirmando aquilo que desde o início o moveu: a arte como acção, como denúncia e como proposta. Ao reunir artistas, activistas, académicos e comunidades em experiências que desafiam o senso comum, o evento consolidou-se como um espaço onde a cultura não é acessório, mas alicerce de mudança. Em cada sessão, performance ou debate, fez-se ouvir um apelo: que a criatividade não se esgote na estética, mas se converta em prática transformadora. A ArtinDev Week voltou a provar que a arte pode ser, de facto, um dos caminhos mais promissores para o desenvolvimento sustentável.