Apathany
Contribuindo para o autofinanciamento dos músicos
Escrito por: Jaime Álvaro
Criada para todos os artistas, a Apathany é uma startup moçambicana fundada em meados de 2020 com o objectivo de revolucionar, a médio e longo prazos, a indústria cultural e de entretenimento nacional, a começar pela música. A iniciativa foi de Zulficar Buraimo, empreendedor de 44 anos de idade, e dela resultou a primeira plataforma no país que permite aos artistas monetizar as suas músicas por meio de visualizações, downloads e likes dos fãs.
A plataforma on-line de música da Apathany precisou de apenas um ano (2020-2021) para começar a atrair centenas de seguidores, entre artistas em início de carreira e outros que procuram consolidar a sua marca num mercado tão concorrido quanto desestruturado. O projecto, que nasceu em meio da pandemia da covid-19, cujos impactos, particularmente no sector das artes, são incalculáveis, visa promover artistas moçambicanos através de live shows, entrevistas, documentários e podcasts. A monetização das músicas, por meio de visualizações, downloads, likes e número de seguidores tem sido um atractivo extra para a adesão dos artistas à plataforma – a única no país com serviço de streaming pago.
Um streaming é a transmissão, em tempo real, de dados de áudio e vídeo de um servidor para um aparelho – como um computador, um telefone celular ou uma smart TV. O streaming mudou para sempre a forma de se consumir música. Se, antes, era preciso fazer-se o download de um conteúdo ou alugá-lo na locadora, comprar um CD, uma cassete VHS, um DVD ou um BluRay, ou até esperar que passasse na TV ou na rádio –, com o streaming é possível aceder-se a uma enorme gama de filmes, séries, vídeos, músicas, entre outros, em tempo real, de qualquer lugar – desde que exista uma conexão à internet. O serviço de streaming de música mais popular a nível de todo o mundo é o Spotify.
Criada para conectar Moçambique
A essência da Apathany, segundo o seu criador, é conectar Moçambique através das artes, e ajudar os artistas a expandirem o seu trabalho e a autofinanciarem-se. "Há muita música de qualidade no mercado, mas não está sendo capitalizada, queremos mudar isso. Queremos elevar a nossa moçambicanidade, ser aquilo que realmente podemos ser, mas não estamos a ser porque simplesmente não temos essa conexão de sinergias no país", apontou Zulficar Buraimo. "Apareceu-me um artista, na altura estudante de música. Apresentou-me o seu trabalho, que tinha um nível excepcional de qualidade, mas não conseguia singrar no mercado. Ninguém lhe abria portas", contou o empresário, que patrocinou o primeiro videoclipe do jovem artista marginalizado, e posteriormente, em 2019, assumiu o papel de seu manager. "Depois pensei: porque não ajudar outros artistas além do Bakhil, porque não ajudar a estruturar o mercado, criando um campo de gravitação cultural, onde todo artista encontra um espaço ou caminho para expandir o seu trabalho e se autofinanciar?" A resposta foi a Apathany, criada em 2020. Zulficar investiu aproximadamente 10 mil dólares (cerca de 650 000 meticais, ao câmbio actual) para implementar o ambicioso projecto, que vai muito além da música. Segundo nos conta, "muita gente conhece a Apathany, mas a plataforma está integrada numa plataforma maior (Ihapari – ‘novidades’, na língua macua), que integra vários serviços e cuja finalidade é conectar os fazedores de cultura e arte em Moçambique", explicou. "Muitos artistas já estão familiarizados com a plataforma, falam da plataforma, mas reconhecemos que é preciso fazer mais para que o público a conheça melhor. Então, a velocidade de crescimento em um ano encoraja-nos ainda mais a seguir em frente. Estamos num bom caminho", regozijou-se.
Uma nova era na música moçambicana
Na era do streaming, a venda de música pela internet continua a apresentar vantagens. Mas, como se sabe, não é tarefa simples para um artista independente colocar música sua para vender nas grandes lojas on-line, tais como a Apple Music, o Spotify, a Amazon ou o Google Play, uma vez que, para tanto, é necessário estar ligado a um agregador digital. A Apathany não tem as burocracias que caracterizam as grandes lojas digitais. A plataforma possibilita aos artistas independentes promover e negociar canções com possibilidade de lucros razoáveis. Associada a uma boa estratégia de marketing no website pessoal do artista e nas redes sociais, a venda directa é uma forma de financiar os artistas. "O principal objectivo da criação da plataforma é servir o agente fazedor da cultura, disponibilizando para ele um campo onde consegue rentabilizar o seu trabalho de modo a autofinanciar-se", esclareceu.
"O principal objectivo da criação da plataforma é servir o agente fazedor da cultura, disponibilizando para ele um campo onde consegue rentabilizar o seu trabalho de modo a autofinanciar-se” - Zulficar Buraimo
Para um mercado como Moçambique, onde a cadeia de valor das indústrias culturais está fragmentada, não existe uma conexão entre a produção, a edição e a distribuição até ao consumidor final, a Apathany, segundo o seu criador, é uma oportunidade para os artistas construírem o seu próprio mercado. "Motivamos os artistas no sentido de lutarem pelos seus objectivos profissionais e incutimos neles que o seu sucesso depende do número de pessoas que conseguem alcançar e influenciar. Aqui (na plataforma) os artistas desenvolvem mecanismos e métodos de influenciar o seu público e, consequentemente, o mercado. Desde cedo é importante o artista saber que o seu trabalho depende disso", advertiu.
A monetização na plataforma acontece por meio de seguidores, número de toques e downloads das músicas. Os valores variam entre 2,5 Mt (se for um seguidor artista) a 5,00 Mt (se for um seguidor fã). Embora seja um atractivo para os artistas, Zulficar afirma que os objectivos da plataforma vão além da monetização. "Queremos mudar a ideia de que a plataforma é só para fazer dinheiro, não é essa a essência do projecto. O nosso objectivo é mudar essa mentalidade e essa percepção de que aqui o importante é a monetização. A plataforma serve para ajudar artistas a profissionalizarem-se e a auto-sustentarem-se", sublinhou o empresário musical que patrocina um programa radiofónico. O programa visa promover as músicas mais tocadas e os artistas mais seguidos durante a semana. É apresentado na Kfm (88.3) por José Nhaca, aos sábados, a partir das 15 horas. "Neste momento, temos mais de 290 artistas cadastrados na plataforma e mais de 3 mil subscritores. Definimos uma meta de 20 mil subscritores até ao final de 2022", salientou.
A plataforma Apathany pode ser acedida através de um smartphone ou um computador. Zulficar Braimo fez saber que a equipa técnica está a trabalhar para desenvolver um aplicativo da plataforma para suportar o sistema android e iOS, de modo a permitir maior experiência dos usuários e a dinamizar as interacções entre artistas e fãs.
