África possui recursos naturais, poupanças e uma população em crescimento capazes de sustentar uma transformação económica sem precedentes. No entanto, continua a ocupar uma posição marginal na economia mundial. Foi para romper este ciclo que o presidente do Grupo Banco Africano de Desenvolvimento (AfDB), Sidi Ould Tah, defendeu, em Banjul, uma nova arquitectura financeira africana assente na mobilização de capital interno, na redução da fragmentação financeira e na criação de cadeias de valor que permitam transformar matérias-primas em riqueza produzida no continente.
Perante os participantes do Fórum do Caucus Africano do Fundo Monetário Internacional e do Grupo Banco Mundial, o responsável sustentou que chegou o momento de África deixar de depender sobretudo de financiamento externo para responder às suas necessidades de desenvolvimento. Em vez disso, afirmou, é necessário construir mecanismos capazes de canalizar as próprias poupanças africanas para investimento produtivo, reduzir o risco dos projectos, atrair capital privado e fortalecer a capacidade industrial do continente.
Os números apresentados ilustram a dimensão do desafio. África alberga cerca de 18% da população mundial, concentra mais de 30% das reservas minerais conhecidas e possui mais de 60% das terras aráveis ainda não cultivadas. Apesar deste potencial, representa apenas cerca de 3% do comércio internacional e do Produto Interno Bruto global, revelando um profundo desfasamento entre os recursos disponíveis e o peso efectivo da sua economia.
Os quatro paradoxos africanos
Na sua intervenção, Ould Tah identificou quatro grandes paradoxos que continuam a limitar a afirmação económica de África.
O primeiro reside na discrepância entre a abundância de recursos e a reduzida influência económica do continente. Embora disponha de importantes activos demográficos, agrícolas e minerais, África continua afastada das principais cadeias globais de produção e de valor.
O segundo diz respeito ao financiamento. Segundo o presidente do AfDB, a transformação estrutural africana exige investimentos superiores a 400 mil milhões de dólares por ano. Ainda assim, o continente dispõe de mais de 4 biliões de dólares distribuídos por bancos, fundos de pensões, seguradoras e fundos soberanos africanos. O problema, sublinhou, não é apenas a disponibilidade de capital, mas a incapacidade de o converter em financiamento de longo prazo para sectores estratégicos como infra-estruturas, energia, agricultura, indústria e inovação.
O terceiro paradoxo prende-se com o investimento privado. Apesar das oportunidades existentes em áreas como energia, infra-estruturas, agricultura e minerais críticos, África capta apenas cerca de 6% do investimento directo estrangeiro mundial. Para Ould Tah, esta realidade resulta sobretudo da escassez de instrumentos financeiros que permitam reduzir o risco dos investimentos. O Banco Africano de Desenvolvimento estima que o continente enfrenta um défice de garantias na ordem dos 50 mil milhões de dólares.
O quarto obstáculo é a fragmentação económica. Embora reúna aproximadamente 1,4 mil milhões de habitantes e uma economia superior a 3 biliões de dólares, apenas 16% do comércio africano ocorre entre países do próprio continente. A título comparativo, este indicador ronda os 60% na Ásia e os 70% na Europa. Neste contexto, a Zona de Comércio Livre Continental Africana assume, segundo o responsável, um papel decisivo para integrar mercados, dinamizar a industrialização e reforçar a competitividade regional.
Financiar África com capital africano
Perante este cenário, o presidente do AfDB apresentou uma estratégia estruturada em quatro prioridades, que designou como os "Quatro Pontos Cardeais".
A primeira consiste na mobilização de capital em grande escala, recorrendo simultaneamente às poupanças internas e ao investimento internacional. Ould Tah defendeu que os bancos multilaterais de desenvolvimento já não podem limitar-se ao financiamento directo, devendo concentrar-se cada vez mais na estruturação de projectos, concessão de garantias e redução dos riscos, criando condições para que cada dólar de investimento público mobilize múltiplos de capital privado.
A proposta ganha especial relevância para países como Moçambique, onde as necessidades de financiamento em sectores como energia, corredores logísticos, agricultura, industrialização, infra-estruturas urbanas, capital humano e adaptação às alterações climáticas ultrapassam largamente a capacidade financeira do Estado. O desafio passa por transformar poupanças nacionais, receitas provenientes dos recursos naturais e investimento externo em instrumentos duradouros de desenvolvimento económico.
Instituições mais fortes para um continente mais competitivo
O segundo eixo da estratégia centra-se no reforço das instituições financeiras africanas.
Embora existam mais de uma centena de instituições nacionais e regionais dedicadas ao financiamento do desenvolvimento, Ould Tah considerou que a sua capacidade permanece insuficiente perante as necessidades do continente e a dimensão das grandes instituições financeiras internacionais.
Neste contexto, destacou a Nova Arquitectura Financeira Africana para o Desenvolvimento, enquadrada pelo Consenso de Abidjan, como uma oportunidade para reforçar a coordenação entre instituições africanas, melhorar a complementaridade das suas funções e aumentar a capacidade de gestão de riscos.
O objectivo não passa por substituir os parceiros internacionais, mas sim por construir um sistema financeiro africano mais robusto, capaz de estruturar grandes projectos, oferecer garantias, financiar cadeias de valor e reduzir o custo do capital para empresas e governos.
Juventude e PME como motores do crescimento
A terceira prioridade coloca o foco no dividendo demográfico africano.
Com cerca de 60% da população abaixo dos 25 anos, África possui a população mais jovem do planeta. Para Ould Tah, esta realidade poderá transformar-se no maior activo económico do continente ou representar um risco significativo caso não seja acompanhada por investimento em formação, criação de emprego, empreendedorismo e inclusão económica.
O tema assume particular importância em Moçambique, onde o crescimento da população jovem exige uma economia mais diversificada, menos dependente dos sectores extractivos e capaz de gerar oportunidades sustentáveis.
Neste âmbito, o presidente do AfDB destacou igualmente o papel das pequenas e médias empresas, responsáveis por mais de 90% do tecido empresarial africano. O reforço do acesso ao crédito, da produtividade, da digitalização e da integração das PME nas cadeias de valor regionais será determinante para transformar o crescimento demográfico num verdadeiro motor de desenvolvimento.
Acrescentar valor antes de exportar
O quarto pilar da estratégia aposta na industrialização e na transformação local das matérias-primas.
Segundo Ould Tah, África continua a exportar recursos em bruto para depois importar produtos transformados a preços muito superiores. Alterar este modelo exige investimento em energia fiável, infra-estruturas, corredores logísticos, qualificação técnica, mercados regionais e políticas de conteúdo local que permitam acrescentar valor dentro do próprio continente.
Mais do que uma estratégia industrial, defendeu, trata-se de uma questão de soberania económica, capaz de gerar emprego, aumentar receitas fiscais, estimular a inovação e fortalecer as economias nacionais.
Para Moçambique, esta visão enquadra-se nas actuais discussões sobre a valorização local do gás natural, dos minerais, dos produtos agrícolas e dos recursos marinhos, procurando converter a riqueza natural numa base produtiva mais diversificada e resiliente.
Apelo a uma resposta internacional mais ambiciosa
Na dimensão internacional, o presidente do AfDB apelou ao Fundo Monetário Internacional para disponibilizar maior flexibilidade financeira, ampliar os recursos concessionais e reforçar a canalização dos Direitos Especiais de Saque para os países africanos.
Argumentou que a sucessão de crises internacionais — da pandemia à guerra na Ucrânia, passando pelas tensões no Estreito de Ormuz — reduziu significativamente as reservas financeiras de numerosos Estados africanos.
Ao Grupo Banco Mundial, reconheceu o contributo da Associação Internacional de Desenvolvimento e destacou as iniciativas conjuntas desenvolvidas nas áreas da energia, agricultura e água. Defendeu ainda o reforço dos mecanismos africanos de seguros e garantias, incluindo a evolução da Agência de Seguro de Comércio de África para uma instituição de alcance verdadeiramente continental.
Encerrando a intervenção, Sidi Ould Tah lançou um apelo à acção coordenada entre governos, instituições financeiras, sector privado e parceiros internacionais. Para o presidente do Banco Africano de Desenvolvimento, a transformação económica do continente dependerá da capacidade colectiva de mobilizar capital, integrar mercados e converter os abundantes recursos africanos em prosperidade partilhada.
