A brincadeira que transforma carisma e popularidade em “pontos” está a espalhar-se entre adolescentes. Especialistas alertam para os riscos de dependência da aprovação externa, comparação social e impacto na auto-estima.
Uma tendência que começou como brincadeira nas redes sociais está a despertar preocupação entre psicólogos e especialistas em comportamento juvenil. Conhecida como “aura farming”, ou “farmar aura”, a prática consiste em adoptar comportamentos considerados confiantes, carismáticos ou “cool” para ganhar simbolicamente “pontos de aura” perante os outros.
O fenómeno tem crescido sobretudo entre adolescentes e jovens e já ultrapassou o ambiente digital. Em vários países surgiram as chamadas batalhas de aura, encontros presenciais em que participantes competem através de poses, gestos, expressões e referências populares nas redes sociais, enquanto o público decide quem demonstrou mais “aura”.
Em Moçambique, ainda não há registo público de batalhas de aura organizadas como as que têm mobilizado adolescentes noutros países. A expressão, porém, faz parte de uma tendência global disseminada sobretudo através do TikTok e do Instagram, plataformas onde novas linguagens juvenis atravessam fronteiras com grande rapidez.
À primeira vista, trata-se apenas de uma nova linguagem juvenil. Mas alguns especialistas alertam que a brincadeira pode tornar-se problemática quando a aprovação dos outros começa a influenciar a forma como o jovem avalia o seu próprio valor.
A psicóloga Irene Lessman está entre as vozes que levantam essa preocupação. Segundo a especialista, o risco surge quando o resultado de uma batalha ou a percepção de ter mais ou menos aura deixa de ser entendido apenas como diversão e passa a interferir na auto-estima.
Lessman alerta que uma dependência excessiva deste tipo de validação pode levar o jovem a associar a reacção dos outros ao seu valor pessoal. Nesse cenário, ganhar aprovação pode produzir uma sensação momentânea de confiança, enquanto uma reacção negativa pode provocar frustração, insegurança ou sentimento de rejeição.
A psicóloga Diane Marie Rodríguez Zambrano, que analisou o fenómeno numa perspectiva psicossocial, identifica igualmente riscos relacionados com comparação social, necessidade de reconhecimento e dependência da validação externa.
Rodríguez sublinha que farmar aura não é, por si só, um problema de saúde mental. Para muitos jovens é apenas humor, diversão e uma forma de pertença ao grupo. A preocupação aparece quando a procura por “aura” começa a condicionar o comportamento, o humor, as relações ou a percepção que a pessoa tem de si própria.
Quando a popularidade ganha pontos
Uma das características que mais chama a atenção dos especialistas é a forma como a tendência transforma prestígio social numa espécie de sistema de pontuação.
Uma atitude confiante pode valer “mais mil de aura”. Uma situação embaraçosa pode significar “menos quinhentos”. Um gesto inesperado ou considerado impressionante pode render “aura infinita”.
Os pontos são imaginários, mas a lógica por detrás deles não é totalmente inofensiva.
A psicóloga Jenny Rojas Rusinque considera que a procura por reconhecimento sempre existiu, sobretudo durante a adolescência. A diferença é que esta geração passou a expressá-la através de códigos próprios das redes sociais e dos videojogos.
O receio é que aquilo que começa como brincadeira possa reforçar uma necessidade constante de comparação.
Em vez de pensar apenas se uma situação foi divertida ou espontânea, o jovem pode começar a perguntar se ganhou ou perdeu estatuto perante os outros.
Pressão para parecer sempre confiante
Outro ponto de preocupação é a pressão para manter uma determinada imagem.
A ideia de “ter aura” está normalmente associada a confiança, controlo, naturalidade e indiferença perante a opinião dos outros.
Mas pode surgir uma contradição.
Para parecer espontâneo, o jovem pode começar a pensar constantemente na forma como anda, fala, veste, reage ou aparece num vídeo. A tentativa de parecer naturalmente confiante transforma-se, assim, num comportamento cada vez mais calculado.
Jenny Rojas Rusinque alerta precisamente para a influência que a exposição permanente nas redes sociais pode ter neste processo. Uma situação que antes seria observada apenas por algumas pessoas pode agora ser filmada, publicada e avaliada por milhares.
Isso aumenta o peso da reacção externa.
O medo de perder aura
Os especialistas identificam ainda um possível efeito sobre a forma como os adolescentes lidam com erros e situações de vulnerabilidade.
Tropeçar, ser rejeitado, demonstrar nervosismo, não saber responder a uma pergunta ou fazer algo considerado embaraçoso pode passar a ser associado à ideia de “perder aura”.
Diane Rodríguez considera que, quando esta lógica se torna demasiado importante, pode contribuir para medo de errar, dificuldade em lidar com frustração e maior preocupação com a forma como os outros avaliam cada comportamento.
O problema não está, portanto, na expressão em si.
Está na possibilidade de o jovem começar a evitar comportamentos naturais por receio de parecer pouco interessante, pouco confiante ou “sem aura”.
Da validação digital à validação pessoal
O médico Ramón Ceballo também chama a atenção para este aspecto.
Segundo o especialista, procurar parecer interessante ou admirável não constitui automaticamente um problema. A preocupação começa quando essa necessidade de reconhecimento se torna essencial para que a pessoa se sinta valorizada.
Quando isso acontece, a ausência da reacção esperada pode gerar ansiedade, irritabilidade, frustração ou tristeza.
Ceballo resume o risco através de uma mudança simples, mas significativa: deixar de perguntar “quem sou?” para passar a perguntar constantemente “como estou a ser percebido?”.
É uma preocupação particularmente relevante numa geração que cresceu rodeada de métricas de popularidade.
Seguidores, gostos, comentários e visualizações já transformaram a aprovação social em números. O aura farming acrescenta uma nova camada a essa lógica.
Agora, mesmo características como confiança, carisma e presença podem ser simbolicamente contabilizadas.
Uma brincadeira que merece atenção
Apesar dos alertas, os especialistas não defendem que o aura farming deva ser visto automaticamente como algo negativo.
As batalhas de aura também têm aspectos positivos. Criam momentos de convívio, criatividade, humor e participação presencial entre jovens.
Victor Gabriel Tourinho Camargo considera que estes encontros ajudam, inclusive, a retirar adolescentes dos ecrãs e a levá-los para espaços públicos onde interagem com outras pessoas.
É precisamente essa dualidade que torna o fenómeno relevante.
Farmar aura pode continuar a ser apenas uma linguagem divertida entre jovens. Mas, quando a brincadeira começa a determinar quem merece aprovação, quem é considerado interessante ou quanto alguém acha que vale perante os outros, deixa de ser apenas um meme.
É nesse ponto que os psicólogos começam a mostrar preocupação.
