Em Moçambique, país de múltiplas condições geográficas, a cultura do café encontrou terreno adequado para variedades de excelência em alguns locais, tais como as terras altas de Manica, as florestas tropicais da Gorongosa, planícies do Niassa e a paradisíaca ilha do Ibo, onde se sabe não ser de hoje tal cultivo. Com efeito, supondo-se introduzida pelos árabes, é centenária a produção no Ibo de um café cujas características únicas de cor, sabor e outras foram internacionalmente reconhecidas em 1906 com uma Medalha de Ouro atribuída na cidade de Lisboa.
Presentemente, impulsionado pelas oportunidades comerciais que a indústria do café proporciona, é visível o interesse que tem merecido o seu cultivo, procurando-se com ele beneficiar também o ambiente e as comunidades locais. Assim sendo, o Ministério da Agricultura e Desenvolvimento Rural (MADER), em parceria com a Associação Moçambicana de Cafeicultores (AMOCAFÉ), a Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (UNIDO) e a Agência Italiana de Cooperação para o Desenvolvimento, organizou o Primeiro Festival do Café de Maputo, que teve lugar no Montebelo Indy Maputo Congress Hotel, na capital moçambicana. O evento reuniu figuras de destaque como o Ministro da Agricultura, Celso Correia, e a Directora Executiva da Organização Internacional do Comércio (OIC), Vanusia Nogueira, bem como diplomatas e representantes de empresas e associações ligadas ao café. Sob o lema “Do Grão à Chavena”, seu objectivo foi facilitar a interacção e troca de experiências não só entre os produtores mas também entre estes e consumidores de café.
Na cerimónia de abertura, Celso Correia destacou o compromisso do Governo de revitalizar e fortalecer a indústria do café, tendo a Directora Executiva da OIC contextualizado o cenário global do sector, enfatizando as oportunidades e desafios que Moçambique enfrenta ao ingressar neste competitivo mercado.
Ao longo do evento, os membros da AMOCAFÉ fizeram-se presentes com suas marcas, proporcionando aos participantes a oportunidade de aprenderem sobre os diferentes métodos de extracção de café, processamento e equipamentos utilizados na produção e ainda degustarem os cafés moçambicanos através de sessões de cupping. A visita de Luca Turello, representante da marca italiana Illy Café, conhecida por seus cafés de qualidade e grande player do café em Itália, reforçou as potencialidades de Moçambique no sector. Além dos muitos elogios que teceu à organização do festival, Turello encorajou os membros da AMOCAFÉ a aumentarem a sua produção.
Um dos momentos marcantes do festival foi a discussão sobre a criação de uma identidade própria para o café moçambicano. Tiago Fonseca, da agência de publicidade Golo (Think Local), enfatizou a necessidade de um plano estratégico bem definido que permita ao país competir com organizações internacionais estabelecidas. A proposta incluiu a criação de um ambiente favorável em todos os níveis operacionais, desde o plantio até a comercialização, garantindo assim a viabilidade e o crescimento sustentável do sector.
Outro destaque do festival foi a apresentação do barista campeão Sami Geda, com experiência profissional na área do café na Etiópia e em vários outros países. Sami explicou o que significa ser um barista, além de ensinar aos participantes como se fazem diversas bebidas à base de café, um expresso de qualidade e desenhos em latte arte. O público teve até a oportunidade de subir ao palco para interagir com Sami, ver de perto como é importante o seu trabalho numa cafeteria e, ainda, fazer deliciosos cappuccinos.
Além de palestras e exposições, o festival contou com o lançamento do guia prático “Cultivo de Café sob Sistema Agroflorestal em Moçambique”, uma colaboração entre Moçambique, o Brasil e Portugal apresentada por Fábio Partelli, da Universidade Federal do Espírito Santo. Esta publicação é um marco na busca por práticas agrícolas sustentáveis que preservem a biodiversidade e promovam a diversificação de renda para os pequenos agricultores.
O Festival do Café de Maputo não só celebrou a história e a qualidade do café moçambicano, como também fortaleceu as ligações necessárias para o estabelecimento de um mercado consistente e de qualidade. A assinatura, em 2023, em Londres, do acordo de adesão de Moçambique à Organização Internacional do Café (OIC) foi um passo crucial nesta jornada, proporcionando visibilidade internacional e parcerias que prometem tornar o sector mais competitivo.
Através de esforços conjuntos entre os diversos actores envolvidos – o Governo, parceiros de cooperação, sector privado e produtores rurais –, Moçambique tem condições para desenvolver a sua indústria do café e posicionar-se cada vez melhor no mercado internacional.
