Existe alguma história por trás da criação do negócio, que data dos anos 60, logo a seguir ao casamento dos meus pais. Por volta de 1966, eles abriram uma casa de pasto na Beira, onde hoje se encontra o Restaurante 2+1, e ali começaram a preparar, com sucesso e muita procura pelos residentes da Beira da zona do Maquinino, e mesmo de outros bairros, sandes de carne assada e galinha na brasa, que eram os pratos fortes da minha mãe. Uns anos mais tarde, decidiram apostar numa mercearia e deixaram por algum tempo o negócio da restauração, apenas passando para os familiares e amigos a confecção de deliciosos pratos que era possível fazerem-se naquela cidade nos difíceis anos do final da década de 70 e na década de oitenta. A imaginação necessária para se prepararem pratos saborosos naqueles tempos (devido à parca oferta de alimentos e exiguidade de recursos) determinou a fama que a minha mãe veio a alcançar nos anos pós 86.
Assim, em 1987, um grande e especial amigo desafiou-nos a explorar um “pequeno” Centro Social no Acampamento do Corredor da Beira, o qual viria a ser um dos maiores restaurantes da Beira durante os anos 90 e parte de 2000. As receitas possíveis ao longo desses anos foram sofrendo as “mutações” da imaginação da minha mãe, do paladar requintado e muito crítico do meu pai e dos meus irmãos, e ainda dos conselhos dos muitos amigos que frequentavam a nossa casa no bairro Palmeiras. Hoje, o Wing’s Maputo (Wing’s Kitchen) é uma viagem a essa história, que tem décadas, e aos dias que passámos na Beira, nos dois restaurantes que os meus pais e o meu irmão Eduardo (Eduardinho) ali exploraram. Muitos dos clientes de hoje são os mesmos de antes e que têm referência dos pratos que eram os seus favoritos ali. Ainda lembram o ambiente familiar dos dois espaços que tínhamos na Beira, e que agora fazemos por recriar em Maputo. Um amigo da família, feliz pelo nosso desafio agora na cidade de Maputo, disse: “O Chiveve transbordou em Maputo”, e creio que acertou: viemos para Maputo para partilhar os nossos paladares e sabores que preparávamos na Beira, nossa terra natal.
“O Wing’s Maputo (Wing’s Kitchen) é uma viagem a uma história, que tem décadas, e aos dias que passámos na Beira, nos dois restaurantes que os meus pais e o meu irmão Eduardo ali exploraram“
O Eduardinho, nosso único chef com formação em academia (Prue Leigh de Pretória), é um artista. Ele tem um paladar exclusivo e uma inesgotável imaginação, para além de “brincar” com os ingredientes. A sua cozinha, tendo como base as receitas da nossa mãe, são a verdadeira fórmula do sucesso da nossa casa em Maputo. Isso, a nossa família e o nosso ambiente retro chique à beira-mar! A comida, definitivamente, tem um papel muito importante, mas não é o mais importante. A comida, a apresentação do prato, o ambiente e a localização do espaço jogam, combinados, o papel fundamental.
Em termos gastronómicos, temos uma cozinha de “fusion”, mistura de mediterrânea, chinesa, indiana, o que faz aquilo que é a cozinha moçambicana e que vocês sempre referem: a dos paladares à solta! O nosso menu é revisto regularmente e tem muito a ver com o que os nossos clientes pedem do menu da nossa mãe, e também com a imaginação do nosso Chef Eduardinho. Temos uma ementa semanal e esse é diferente do menu corrente, fruto da imaginação do Eduardo. Sempre que é possível, usamos muita produção orgânica (em parceria com fornecedores locais: ovos, vegetais, carnes) e fazemos por desenvolver pequenas empresas, também por parcerias ou contratação. Para além do restaurante, fornecemos serviços de catering para eventos, e, claro, comida para levar em doses familiares. O restaurante é parte de uma empresa de consultoria e de eventos e, para além da restauração, organizamos conferências e outros eventos corporativos.
O Wings Maputo (Wings Kitchen) abriu num contexto de crise e pandemia. As medidas que implementamos foram as decretadas pelo Presidente da República para não propagação da covid-19, e redobrámos os esforços para evitar que os nossos funcionários corressem riscos. Conseguimos aderir à iniciativa COVAX do sector privado e vacinámos todos os colaboradores logo que as vacinas estiveram disponíveis, fizemos quarentena e isolamento sempre que tivéssemos tido contactos de risco e não poupámos na desinfecção e higienização de todos (clientes e funcionários). Isso, por si só, é um custo muito elevado para um negócio emergente e reduziu os ganhos de forma muito significativa e impactante, mas em nenhum momento lamentámos, pois conseguimos, mesmo assim, permanecer no mercado, e todos os nossos clientes se sentiram sempre seguros quando nos visitaram. A fiscalização feita pelos oficiais do governo foi muito educativa e pertinente, pese embora o facto de ter sido normalmente accionada por denúncias que não transmitiam a realidade.
Temos constatado, nos últimos tempos, a imersão do digital e, felizmente, a família tem membros jovens e, com a ajuda dos sobrinhos – a 3ª geração dos Wing – ela tem sido muito bem-sucedida. Como algumas dessas plataformas têm custos para um desempenho profissional, achámos por bem iniciar com o que está disponível a custos baixos, e avançar para o futuro num passo mais lento. Consideramos a criação de uma página e ter um menu online para encomendas e reservas, entre outros. Ainda não atingimos o patamar que pretendemos; numa cidade tão grande como é Maputo, queremos muito expandir a curto e médio prazos, e solidificar a nossa posição no mercado. Os nossos planos para o futuro são mesmo o continuar a fazer este trabalho maravilhoso de que tanto gostamos, ter os amigos e clientes à volta das nossas mesas e poder oferecer pratos lindíssimos e saborosos. E que eles queiram sempre voltar para mais.”
